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UM OLHAR "GIRAFÊS" * [Heloisa Reis]

Palestras podem ser muito instrutivas, mas a que assisti na semana passada foi muito mais que isso! O título “Mais húmus, mais humanização” já foi instigante. Meu interesse era saber sobre a agricultura orgânica e os problemas com a aplicação de agrotóxicos, assunto tão na crista da onda.

Mas o que ouvi e vi me surpreendeu. O jovem palestrante aparentava muito menos que trinta anos e no calor de sua fala apaixonada revelava uma sensibilidade fora do comum e uma fundamentação teórico-científica respeitável.

Iniciou dizendo que a natureza não deve ser “preservada”, e sim compreendida. Ao entendermos os processos naturais podemos interagir com eles e tirar benefícios sem destruir e sem interferir nesses processos para chegar a mais produtividade e mais retornos econômicos.

A criação de abelhas, por exemplo, da forma como vem sendo feita – através da artificialização da criação de rainhas e até com seu envio pelo correio – vem enfraquecendo a espécie, deixando-a frágil e não resistente aos defensivos agrícolas ou às radiações das ondas de comunicação que cortam o planeta. Não é à toa que elas estão desaparecendo.

Precisamos despertar para a observação das forças criativas da natureza. A manipulação necessita de coração. Precisamos mudar nosso olhar e enxergar os espaços vazios com a sensibilidade, com a intuição. A ciência a ser desenvolvida agora é a ciência do espírito que, aliada à da matéria. pode vir a impregnar de alma nossas buscas por soluções aos mais prementes problemas.

Se olharmos com a alma veremos que as grandes tragédias naturais não acontecem por si só. A erosão está sempre ligada a conflitos e problemas sociais ligados a explorações predatórias.

Precisamos desenvolver um olhar compreensivo. Como aquele que vê algo na ilustração abaixo.
Mas apenas pensar com o coração nos nossos tempos não é suficiente. A cegueira do amor cantada no dito popular que só nos faz fixar atenção no objeto amado precisa ser complementada com a generosidade da atenção total ao entorno, às variáveis, aos fatores complicadores se quisermos alcançar as redenções sociais, ecológicas e pessoais que tanto buscamos.

No húmus, então, podemos encontrar respostas. A terra tratada com espiritualidade, com sensibilidade, com atenção, é o início da espiritualização da ciência que leva à fertilização e a um sacro ofício em prol da natureza e, em conseqüência, da humanidade.

Vamos olhar para a terra, para o próximo, para nós mesmos, procurando ver algo através do que vemos normalmente. Contudo, para que se olhe diferentemente podem ser necessárias algumas pistas, algo que desperte nossa percepção. Então procure a girafa na ilustração acima, e aplique um olhar “girafês” a tudo à sua volta!

* Essa expressão, que tanto me encantou, e foi usada por Bruno Jorge Follador na palestra “Mais Húmus, mais Humanização” na Sociedade Brasileira de Antroposofia em 26 de Janeiro de 2012, em São Paulo, foi inspiração para esta crônica.

Comentários

Zoraya disse…
Heloísa, beleza de crônica, beleza de mensagem. Estamos tão afastados de nossa identidade que nao vemos o que realmente interessa. Adorei, obrigada
Heloisa, quem vai adorar esse olhar girafês é a Fernanda Pinho, aqui do Crônica do Dia. :) Bonita reflexão!

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