quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

SEGUNDO CAPÍTULO >> Carla Dias >>


Para ela é uma profissão digna, como qualquer outra profissão desempenhada pelo ser humano. Portanto, levanta-se bem cedo, antes que amanheça, cuida de pequenas tarefas dedicadas à arrumação da casa, deixando tudo limpo e confortável para ser apreciado mais tarde, quando voltar da labuta. Todo final de dia, ela se senta em sua sala, coloca um disco de Norah Jones para tocar e bebe uma taça de vinho, espairecendo, livrando-se da tensão.

Os homens aprenderam a cortejá-la em silêncio, através de olhares insinuantes, porque onde já se viu se desejar uma profissional como ela? Por mais que houvesse lascívia, que os astros se alinhassem a favor de conceder a ela o prazer tão merecido, tudo tem de ser extremamente secreto para não confrontar a normalidade da qual ela não participa. E quando lhe tocam, seus homens enraízam em seu corpo o disparate, porque sucumbem ao medo de lá se perderem e não serem mais capazes de voltar às suas vidas como a conhecem.

Por isso ela já desistiu do amor, e há tanto tempo aceitou que pode ser que jamais venha a conhecê-lo. Aproveita-se dos que ousam lhe tocar, como se amanhã tal oportunidade fosse extinta, porque tem ciência de que isso é possível. É possível que o beijo de hoje seja o único durante uma década, que o abraço não se repita tão cedo ou tão terno. Ainda assim, aprecia a sua profissão e dedica-se a ela com esmero.

Sua mãe se perdeu em seu pai, por isso ela existe.

Caminha pela rua, ciente dos olhares de todos sobre ela, dos comentários ácidos de muitos, mantendo os olhos cravados no adiante, sem distrair-se com as negativas. Aprendeu o ofício com o pai, de quem o silêncio era quase absoluto, a não ser quando falava sobre o trabalho. Havia tanta paixão em tais momentos, que se acostumou com a ideia de alcançá-lo somente através da rotina da sua profissão. E tornou-se a herdeira das suas habilidades, enquanto cultivava, secretamente, a conexão que desejava manter com seu genitor. E um dos melhores momentos era quando, exaustos de tanto falarem sobre o assunto, sentavam-se na sala para escutar Miles Davis, o pai apreciando um bom vinho, e ela bom copo de leite quente.

O pai morreu cedo, ela era apenas uma menina. Ainda assim, ela se armou com os ensinamentos dele e deu continuidade ao trabalho, ele que não quer saber se os seus feitores sofrem ou partem deste mundo, e lidam com a necessidade das forças ocultas do universo, ou do Deus, de colocar o destino de tantos em ordem.

A maioria das pessoas acredita que herdar tal profissão do pai traz ainda mais peso ao fazer. Para ela, é uma forma de manter a memória daquele homem inteligentíssimo, mas que tinha uma dificuldade imensa em se conectar com outras pessoas. E também de colaborar com o momento tão difícil daqueles que usufruem dos seus serviços.

Sua profissão exige sutileza, independente da forma como o trabalho chega a ela. Por isso ela se veste de maneira nada chamativa, caminha em andamento de tranquilidade, sorri para comungar com a leveza. E ela nunca promete nada aos seus clientes, porque conhece muito bem tudo o que precisa para executar a sua função, mas ignora completamente o que vem depois do feito.

No quarto do apartamento apinhado de livros, ele insiste em se manter sentado em um sofá, perto da janela. Não quer perder a vista que lhe seduziu a viver ali. É jovem, trinta e poucos anos, e ela lamenta, em silêncio, que seja assim, com a vida em riste. Ele sorri para ela, lábios trêmulos, sorriso mirrado, e se levanta, aproximando-se dela na lentidão que seu corpo permite.

Algumas pessoas sentem tanto medo, que gritam, tentam correr, mesmo quando seus corpos já não lhes permitem mais tal ousadia. Outras são como esse rapaz, que pousa as mãos sobre os ombros dela, depois lhe toca as faces, admira a maciez de sua pele, e lhe confidencia o seu nome, porque não quer que a autora do feito não lhe saiba pessoa.

Porém, diferente daqueles aos quais já prestou os seus serviços, esse rapaz a observa com uma profunda admiração. E lhe beija os lábios, e a abraça tão forte quanto a sua fraqueza permite, e lhe oferece o alento ao dizer que compreende o que ela tem de fazer.

E ela decide fazê-lo de maneira tão branda como nunca fizera antes, porque o rapaz a aceita, ao invés de temê-la, o que a deixa à vontade para exercitar a empatia, coisa na realidade dela. Então, senta-se na cama e o chama. Ele deita a cabeça em seu colo e ela embrenha os dedos em seus cabelos. E quando ela começa a cantar, ele chora, mas é choro de quem encontra o alívio. Não demora a acontecer, de o silêncio cair sobre eles. Ainda assim, ela passa horas na companhia dele, o rapaz que lhe fizera sentir vida, enquanto ela lidava com a morte.

Quando se mostrou interessada em seguir a profissão do pai, ele lhe falou sobre assuntos dos quais as crianças deveriam ser mantidas bem distantes. Ela acredita que a intenção era assustá-la, para que ela voltasse às suas brincadeiras, aproveitasse a sua infância. Porém, ela permaneceu ali, atenta, curiosa, questionadora, desejosa de ouvir a voz dele. E ela se lembra perfeitamente do que ele disse, após muito tempo de conversas, e de ele tentar anular o desejo dela de seguir os passos dele. “Ceifar almas não basta. É preciso pegá-las pela mão e acompanhá-las até onde elas tenham de ir. Ninguém quer estar sozinho em um momento destes, tampouco precisa. Então, cabe ao acompanhante de almas fazer esse papel.”

Acompanhante de almas, companhia dos últimos suspiros de tantos. E apreciadora de vinho e música. No fim do turno de hoje, ao invés do ritual diário, deita-se na cama, embalada por um choro miúdo. É a primeira vez que se sente incapaz de se levantar no dia seguinte e fazer tudo de novo, espiar as lembranças de tantos, suas mágoas e alegrias, perceber aqueles poucos segundos em que alma de alguém se desprende de quem ele foi aqui.

A primeira vez que atuou como acompanhante de almas foi com o seu próprio pai, e alguns anos depois, fez o mesmo com a sua mãe. E já perdeu as contas de quantas pessoas já atendeu. Mas ao contrário das profissões que celebram a vida, a dela compreende encontrar a morte, e por isso mesmo, apesar de todo o conforto que isso possa trazer aos clientes e aos seus familiares, não há agradecimento após o feito, apenas um silêncio tão profundo, que ao final do dia só lhe resta chorar copiosamente, debaixo do chuveiro, até as emoções e esgotarem.

E então: sala, vinho e música. Um apelo secreto pelo esquecimento que nunca chega.

Come Away With Me – Norah Jones


Imagem © Idea Go: www.freedigitalphotos.net




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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, estou gostando desse folhetim. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... É que ando numas de imaginar profissões diferentes. Já tem outra me martelando os pensamentos.

Zoraya disse...

Carla, faça o favor de desenvolver essa! Quando sai o próximo capítulo?

albir disse...

Carla,
vamos ao terceiro capítulo.

Carla Dias disse...

Zoraya... Vou desenvolver :)
O próximo capítulo só Deus sabe quando virá. É assim, dá vontade e eu escrevo para o Crônica. Mas confesso que me deu vontade de criar mais alguns personagens com profissões tão complexas. Por isso decidi fechar em 7 capítulos.

Albir... Vamos lá!