sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A VINGANÇA DA VIÚVA >> Zoraya Cesar

A morte de Eugênio foi um choque para todos, ainda mais uma morte tão acidental, tão ridícula. Acidental porque indiretamente provocada pelo empregado que ele acabara de demitir. Ridícula porque Eugênio morreu engasgado com uma banana.

Coisas da vida. O rapaz demitido, um pouco alterado, gritava que Eugênio merecia morrer como um macaco. E Eugênio, talvez para desfeitá-lo, colocou uma banana inteira na boca, com casca e tudo, engasgou e morreu. Simples assim: eles trabalhavam numa transportadora de frutas, e a banana estava num caixote ao lado. Enquanto Eugênio engasgava, o rapaz berrava que ele era um sem-vergonha debochado e o resto do pessoal não estava próximo o suficiente para entender o que acontecia. Até que todos se dessem conta que o patrão não estava enlouquecendo, mas morrendo, era tarde demais.

Mas, como dizíamos, foi um choque para todos. Cartões lacrimosos e imensos buquês de flores expressavam o profundo pesar que fornecedores e atacadistas sentiam pela morte prematura e, para dizer o mínimo, exótica, de seu cliente. Os poucos conhecidos se reuniam em volta da mesa repleta de pedras de dominó – Eugênio era um apaixonado pelo jogo; podia-se dizer que era seu único vício –, para relembrar seu jeito calado, seus modos severos e corteses, seu jeito galante e tímido com as mulheres.  

Homem justo, dizia um. Empresário honesto, completava outro. Patrão melhor não havia, afirmava um terceiro, que nunca trabalhara com Eugênio. Enfim, a sabedoria popular pintava-o como um homem sério, respeitável, bondoso, até. Uma perda irreparável, diziam, sinceros, sem se darem conta de que, na verdade, nada sabiam da vida particular do morto, pois este era, também, muito discreto, a última qualidade a coroar-lhe a quase santidade.

Tão discreto, que ninguém jamais fora convidado à sua casa ou apresentado à viúva.

A viúva.

D. Rosário chegou do velório e sentou na velha poltrona de estofado roto, ainda um pouco atordoada. O advogado da firma, Dr. Soares, homem honesto e formal ao superlativo, fora direto ao ponto:

– Senhora, nesse momento em que a dor pela perda de seu amado esposo se faz tão pungente, garanto-lhe, ao menos, que o culpado por tal desdita sofrerá as consequências de seu ato. E devo, outrossim, tranquilizá-la em relação ao seu futuro. A senhora é a única herdeira de uma fortuna bastante sólida.

D. Rosário olhou em volta da sala. O papel das paredes, descolorido e sujo, e os móveis velhos e desconfortáveis davam uma aparência lúgubre ao ambiente; a louça desfalcada, a ausência de livros, os eletrodomésticos ultrapassados, enfim nem o olhar mais caridoso poderia encontrar algum indício de riqueza naquela casa, que dirá imensa fortuna. Na geladeira, só o essencial. Eugênio controlava tudo – dinheiro e D. Rosário – com mão de ferro.

Casara no Norte, extremamente jovem, com o consentimento do pai, que não tinha mais como sustentar a família e queria um futuro melhor para ela. O casal não teve filhos, e Eugênio se esmerava em torturá-la com intermináveis sessões de incriminações e xingamentos, sem nunca revelar que era ele o estéril.

Na verdade, indiferente à excelsa opinião que o mundo exterior lhe conferia, na intimidade Eugênio era um monstro, sensível apenas a qualquer sofrimento que pudesse causar à esposa ou aos subalternos. Ele nunca permitira a D. Rosário estudar ou trabalhar, o que a deixava inteiramente dependente dele. Sua única distração eram as novelas, quando ele não estava de mau humor e a obrigava a desligar a televisão. Criada para ser serva do marido, D. Rosário não contava seu casamento em anos, mas em sofrimentos, desditas, abusos, humilhações.

Somente ela e os poucos empregados da firma sabiam que a estatura atarracada, os olhos miúdos como os de um porco, o nariz adunco e grosso e as mãos pequenas, que abriam e fechavam incessantemente, como se estivessem sempre prestes a agarrar alguma coisa, escondiam uma personalidade cruel e sádica. Além do dominó, a grande paixão de Eugênio era perpetrar maldades aos seus funcionários mais humildes.

No entanto, mesmo não sendo a mesma moça ingênua que viera da roça, e mesmo com tudo o que sofrera ao longo dos anos, era D. Rosário uma pessoa boa.

Não achou graça na morte esdrúxula do marido, nem pensou que ele bem fizera por merecer. Sequer fez planos para o futuro. Não. D. Rosário ligou para o Dr. Soares.

Antes de qualquer coisa, decidiu, iria contratar o melhor advogado da cidade. Não era justo, pensou, que ficasse preso o rapaz que acidentalmente lhe dera a liberdade.


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9 comentários:

Luciana disse...

Um conto com um toque de justiça, adorei!!!prendeu minha atenção até o fim, mto bacana!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Zoraya, me fez lembrar de uma tia-avó minha, que dizia: "casar é bom, ficar viúva é melhor". :)

Anonymous Extasiadus disse...

Verdadeiro mergulho, rápido e sutil, nos extremos morais da alma humana, com narrativa digna do melhor do estilo naturalista. Quase tão boa quanto eu!

Laísa Duarte disse...

Adorei a crônica,confesso que me fez lembrar de momentos similares onde "acidentes" me deram a tão sonhada liberdade.
Parabéns!

Alexandre Durão disse...

Essa é da série "Pequenas maldades de Zoraya".
O sujeito não valia nada, é verdade. Mas ser viciado em dominó e morrer entalado com uma banana, é muita crueldade. Sei que não está na crônica, mas imagino que o empregado não fica um dia na cadeia, mas quantas noites nos braços da Rosário?
Adorei, beijos.

aretuza disse...

Vou já encaminhar a crônica para algumas "D. Rosário" q eu conheço...

Érica disse...

Verdadeiro momento de catarse para várias D. Rosário desse mundo! E viva a banana! rs

albir disse...

Que maravilha, Zoraya. A liberdade caiu no colo da Rosário e a cosciência ficou tranquila para desfrutar.

Cecilia Radetic disse...

A Rosário agora ficou fã do empregado e da banana. Sabe que nunca pensei que a liberdade podreria vir de uma fruta! Bom, como disse o Durão, para colocar de forma criativa - isso só você - as nossa maldadezinhas (com quem merece, é claro!).