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A VIAGEM >> Kika Coutinho

Hoje, voltando dessas férias de carnaval, passamos por aquele stress cotidiano no carro. Crianças gritando. Uma grita enquanto tenta se soltar da cadeirinha, outra, a menor, grita enquanto sacode as mãozinhas, que não sabem soltar-se do cinto. Ufa — quase acho bom esse não saber da minha bebezinha.

Já em casa, esgotados, mais uma resposta mal-criada foi a gota dàgua e soltei meus piores rugidos com a minha filha: "Chega! Chega, chega!", eu rosno, enquanto ela, num instante, me desafia. Oras, como assim? Ela calça 21, pesa o quê, 12 quilos? Que coisa é essa de me desafiar como se fosse minha chefa, líder da América Latina toda?!

Enquanto me abaixo na altura dela, tento explicar: "Sofia, você sabe quem manda aqui?!"

— Eu — ela responde, líder do mundo né?

— Não, Sofia, quem manda aqui sou eu. Eu e aquele moço ali, o papai. Você não manda aqui, entendeu?! Ela chorou, frustrada.

Saí para dar banho na outra menina, que também chorava no quarto ao lado e, quando a deitei na pia, tão pequenina, cabendo num tampo de mármore ridículo, desejei, então, congelá-la. Onde será que se pode congelar crianças? Eu a congelaria, por um ano talvez, e manteria minha filhota sempre, sempre pequena. Quando eu enjoasse dos 6 meses, soltaria de novo, até 1 ano. Depois até dois. Certamente levaria uns 10 anos até que ela completasse 5 e, aí, então, estava feito, ficaríamos para sempre entre os 6 ou 7, nunca chegaríamos à adolescencia...

Que bobagem, ri de mi mesma, enquanto tirava a fralda daquela neném risonha. Filha, eu sei, não posso te congelar e acho que não o faria, não. Mas, olha, te peço, por favor, mesmo que você cresça muito, mesmo que, sei lá, vai que uma dia você meça 1.70cm, até mais, ai meu Deus, mesmo que você use salto agulha, tamanho 38, que mais que isso acho difícil, e mesmo que você seja líder da America Latina toda, ainda assim, querida, lembre aqui, de nunca deixar de ser a minha filhotinha querida, que cabia inteirinha nos braços dessa sua velha mãe. Feito?

Comentários

Raul Lessa disse…
A crônica é muito boa, embora parta de uma premissa falsa e ingênua, Kika.
Quando você diz para a Sofia :
...sic..Nào Sofia, quem manda aqui sou eu. Eu e aquele moço ali, o papai......
você mostra que NÃO FAZ A MENOR IDÉIA DE QUEM MANDA EM QUEM....
Beijoca, minha menininha querida que , crescidinha, continua ingênua....
Raul Lessa
Josiane Caetano disse…
É uma "coisa" a maternidade mesmo, não? A gente passa por tantas devido a pequena idade deles, mas ficamos morrendo de medo que eles cresçam. Tbém sou assim com a minha Beatriz.
Zoraya disse…
Kika, ler você é sempre um grande prazer. Beijos.

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