sábado, 25 de fevereiro de 2012

ENCONTROS COM A CO-OPERAÇÃO
[Heloisa Reis]

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
“Mãos Dadas”, C.D.de Andrade



Muito tem me (pre)ocupado a dificuldade de se estabelecer um processo interativo entre pessoas que habitam uma mesma rua. A proximidade física não tem sido suficiente para que se desenvolvam projetos e objetivos comuns dentro do conceito de cooperação.

Por que será?

Acho que para que essa interação se desenvolva é preciso que se veja o outro como uma totalidade. Facilitaria se soubéssemos sobre seus traumas, seu passado, as causas de sua felicidade e mágoas; se conhecêssemos suas virtudes e defeitos. Mas a vida nas cidades leva ao fechamento não só dos portões, mas também da alma entre as pessoas...

De fato observo que pode até haver cooperação entre vizinhos quando há um objetivo comum, uma reclamação contra um terceiro, ou um problema que afeta a ambos... mas sempre algo específico e momentâneo. O processo é curto e temporal. E saber da vida dos outros tornou-se algo condenável, nivelado com a fofoca e com a nada recomendável trama das novelas onde abundam situações de conflitos e disputas não raro com cenas deploráveis de agressões e xingamentos. Nada disso traz este desejável espírito de cooperação.

A competitividade continua a ser objetivo de muitos, quando, para que se faça um trabalho cidadão por exemplo, ela é totalmente dispensável. Egos e prevalência de algumas iniciativas em detrimento de outras apresentadas por diferentes pessoas podem e devem entrar em acordos que visem o benefício comum. O que poderia acontecer se a cooperação desaparecesse e apenas ficasse a competitividade? Guerras, muitas mais, sem dúvida.

Estamos no século XXI, podendo deixar para trás os conceitos dos séculos passados nos quais vimos predominar o espírito guerreiro nas disputas por conquistas de territórios e riquezas. Não estamos mais em situação de buscar acúmulos e privilégios. A vida no planeta nos aponta uma direção inexorável: ou nos unimos na busca das soluções ou simplesmente desapareceremos.

A nação é formada por instituições organizadas, das quais fazem parte grupos de pessoas que estão na base e são a essência do tecido que compõe a sociedade. É o indivíduo o sujeito da ação primeira e a ele cabe despertar para a eficácia da cooperação com seu vizinho. Mas o individualismo que hoje prevalece precisa ser superado pela busca de resultados efetivos na solução de problemas, na harmonização de conflitos e na realização de metas.

Como?

Sem dúvida no desenvolvimento da noção de Cooper-ação. Nas nossas necessidades estamos todos interligados: precisamos de quem planta e cultiva nossa comida, de quem a industrializa, distribui e faz chegar às prateleiras do mercado. E ainda do lixeiro que passa em nossa casa e recolhe os restos inúteis do que consumimos. Somos interdependentes até mesmo das decisões políticas das quais muitas vezes não queremos nem saber.

E somos seres em constante transformação. Observar as transformações à nossa volta passa a ser um grande exercício quando decidimos lançar um olhar além de nossos muros para enxergar verdadeiramente a necessidade do outro que também é nossa.

Conseguiremos combater a corrupção de que tanto nos sentimos reféns, e a violência, e a tendência ao uso de entorpecentes quando verdadeiramente nos sentirmos unidos na possibilidade de estabelecer encontros de almas que busquem a construção de um mundo pleno de valores positivos.

Co-operando, não acha?


* Heloisa Reis é ativista e colaboradora de diversas entidades ambientalistas que atuam na Região Oeste da Metrópole de São Paulo.


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3 comentários:

Vicente Lima disse...

Os dias passam ás pessoas vão e vem, mas o pecado do homem é velho, e torna-se imutável depois da infância.
Mesmo que organizadas com perfeição, suas palavras iram atingir poucos, e sei que sabes disso.
Porém, peço sempre ao mestre pra que pessoas como você nunca parem de escrever, e tenham uma big family, para poder passar uma ideologia de paz, diferente da ensinada pelo networking.

Obrigado, por sua crônica.

Zoraya disse...

Heloísa, parabéns por trabalhar em causas nobres, muito obrigada. Despertar o instinto de cooperação é realmente muito difícil,pois todos estamos muito entranhados no nosso umbigo. Sei como é, trabalho com gestao ambiental na minha empresa e tenho de convencer as pessoas a jogar o lixo no lugar certo. Aproveitando o comentário do Vicente, espero mesmo que o Grande Mestre abençoe todos vocês, que lutam por nós

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Heloisa, você já leu algo sobre Economia do Presente (Gift Economy)? Traz umas boas ideias sobre essa questão.