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CAPÍTULO FINAL >> Carla Dias >>


Daqui desse lugar  que é dele, desse observatório de ruas...

Dali, da mesa de canto tomada por brochuras: churrasco, pizza, doces, tortas, livros, remédios, roupas, pessoas. Ele alcança certo entendimento com a situação, mas não de compreensão que chega como se tivessem acendido a luz, depois de dias de escuridão no recinto. Ela vem se arrastando, exalando o perfume do que jamais chegará. Ainda assim, parece que vai continuar a tentar tocar linhas de chegada.

Ela vem, travestida de esperança rançosa, o que só faz agoniá-lo ainda mais.

Ele me dá trabalho, confesso. Narradora intrometida que sou, gosto de movimento, mesmo que seja o movimento de palavras em desordem, que eu possa organizar a bel-prazer. Só que ele, que há dias vem se alimentando dessa exaustão imputada, arrastando-se quase que tão lentamente quanto a sua compreensão, vem me forçando a recorrer a pontos de virada que evito encontrar, durante festa de desatamento de trama.

Consciência é coisa séria se você a tem, mesmo que ela esteja por debaixo de mil e tantas tramoias, capazes de evitar que ela exercite seu direito a certa coerência. Há quem consiga adormecê-la ao mergulhá-la em incrementadas desculpas esfarrapadas.  Feito meu caro personagem de hoje, essa figura que me agrada, em tantos aspectos, e me desaponta, em incontáveis sentidos.

Tão talentoso em aquietar consciência e aproveitar o que oferecia essa distração a qual ele se submetia por gosto... ad libitum.

Essa é uma questão para narradores intrometidos: a espera. Temos até um grupo de apoio para nos ajudar a seguir para o próximo capítulo. Eu mesma já tomei várias doses de café, migrei para o vinho, escancarei para as margaritas e ele ali, sentado no sofá, olhando para lugar nenhum. As luzes apagadas, como se a morte tivesse escoltado para o além o grande amor da vida dele.

E isso embrutece todo afeto que sinto por ele, quem não tem ideia do que seja esse tipo de amor, de sobrenome “da vida”.  Sabe quantos deles eu já narrei? O suficiente para aprender que ele pode ser confundido com a segurança da certeza, enquanto o que mais há na sua essência é o questionamento. Enquanto o que enriquece sua essência é a inquietação.

Aprende-se muito com os altibaixos.

Questione.

Ele fica ali, perdido em um devaneio sem ritmo, pensando na consciência rastejante perfumada de impossível, travestida de esperança rançosa.

Já vi acontecer e muitas vezes.

Enquanto espero pelo infame pensamento - que destravará o enredo e o preencherá de consciência enérgica, exalando verdade, vestida de fatos -, penso no cuidado que terei ao detalhar o misto de libertação e desalento. Porque consciência, quando acorda, amplifica erros cometidos, durante a sua ausência. Acontece de esses erros terem consequências infernais.

Narradores intrometidos estão sujeitos às longas esperas pelo óbvio. Eu sabia que ele acabaria assim, nessa melancolia desatada, de fazer observadores desejarem que super-heróis apareçam e mudem tudo.

Nenhum super-herói será capaz de resgatá-lo das consequências que a ele pertencem.

Daqui, da minha espera, depois de ler todas as brochuras de delivery, assim como as mensagens do celular dele, garanto, meu leitor, nada do que o agoniou, até aqui, importará. Nenhuma perda, seja lá qual tristeza. Nada fará diferença.

A minha consciência de narradora intrometida nunca foi dos disfarces. Prefiro saber, sem que me poupem dos relatos inspiradores dos diálogos que mais aprecio. Já houve diálogos que amargaram, filhos que eram de relatos de admiração e afeto reprimidos. E os que comoveram com aprazimento, baseados em relatos miseráveis, que se debruçavam em um único ponto de cordialidade, entre os envolvidos.

Seguro a mão dele, meu personagem da vez. Daqui a pouco, tudo será diferente. Se pudesse, eu mesma revelaria a ele – ao tom de protagonista de novela das mais dramáticas – que ele será traído pela própria consciência. Porque ela chegará e mudará tudo, e assim, também o mudará. Ele nunca mais observará o mundo do mesmo lugar. Sentirá horror do que sua adormecida consciência foi incapaz de impedi-lo de fazer.

E se perguntará como chegou aqui e para onde irá.

Beijo a face dele, enquanto lamento, gesto esse que não entrará para história, mas que espero que fique com ele, feito um banzo, para dias de tempestades interiores. Afasto-me, sem perdê-lo de vista.

Hora de narrar acontecidos, sem me intrometer em desfechos.

A consciência dele acorda. Ele grita.

Fim.

Imagem: Vanitas Still Life © Edwaert Collier

carladias.com

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Li sua crônica - que, no fundo, é angustiante - ouvindo Alberta Hunter. Foi por acaso. Claro q acasos não existem. Crônica e música se entrelaçaram e meu prazer em te ler e ouvir Alberta Hunter aumentou indizivelmente. Obrigada, Carla!
Carla Dias disse…
Alberta Hunter é demais, não? Sim... a música é presente, de jeito muito do atrevido e deslumbrante. Beijos e obrigada, Zoraya.