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JOÃO E MARIA >>> Sandra Modesto


Maria acorda e encara o espelho desses comprados no camelô. 

Sobre a mesa apertada nos dois cômodos da casa, alguns pães amanhecidos. 

Prepara o café. Engole o caos da luta. 

João mora do outro lado da rua em meio à desigualdade social esquecida. 

Maria e João possuem uma força bruta. 

Vão ao mercado do outro lado da cidade. Com máscaras pretas rezam para não serem confundidos. 

No Brasil, preto tem cara de bandido. João e Maria sempre deram um jeito no verbo suportar... 

Suportar o sol, a chuva, atropelos, dissabores. Os boletos chegando. O trabalho informal pedindo socorro. 

Maria e João em seus barracos. 

O pai de João está tossindo. Os dois trocam olhares preocupados. 

No barraco de Maria, o filho pequeno pede colo, o do meio desenha no papel, a menina de onze anos fala baixinho:

— Mãe, se eu tivesse um computador com internet... 

Estudar pelo celular... Tá difícil, mãe. 

— É filha, por enquanto o computador não dá pra comprar. 

— Vamos comer pão com ovos e tomates? Pra espantar as tristezas. Quer? 

— Quero! 

Antes de dormir, olham o desenho no papel. Seis mãos entrelaçadas.

Mãe e filhos se alimentam de sonhos pequenos. 

E assim termina o dia. Começa o dia. 

Nem preciso contar mais. 

Tudo está por um triz. 

Ainda ontem morreu um menino negro.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Muito sensível! "Mãe e filhos se alimentam de sonhos pequenos. ". amei isso.
Albir disse…
Como canta Raimundo Sodré: "A dor da gente é dor de menino acanhado, menino-bezerro pisado, no curral do mundo a penar..." E ainda Caetano: "Tudo demorando em ser tão ruim."
Laércio disse…
Em meios a tantos desalinhos em nossa sociedade machista, preconceituosa e racista eu me deleito com essa bela crônica, chamando a atenção pra o cotidiano solitário de famílias que no fim....entrelaçam.
whisner disse…
Estudar pelo celular se tornou, infelizmente, a realidade de muitos jovens, principalmente os da periferia... Quanta desigualdade. Bonito isso: "Engole o caos da luta."