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DESAFIO NAS TERRAS DO SEM FIM >> Zoraya Cesar


Já nasci cavalgando. Não tenho memória da infância que não montar a cavalo e manejar o revólver. Eu gosto. É minha natureza. Uma vida dura, essa que escolhi, mas não reclamo. Nunca reclamo. 


Fiz de tudo. Guarda-costas. Justiceiro. Matador. Boiadeiro. Caçador. Agora sou só cavaleiro. Eu, meu cavalo e meu revólver, no céu ou no inferno, juntos,  percorrendo o giro do mundo. Ver o céu amanhecer lilás e se espessar de nuvens plúmbeas de chuva forte e doída. Atravessar leitos de rios tão gelados que mesmo a alma se retraía. Assistir ao embate de ursos da pedras por território. Dormir ouvindo as corujas sussurrarem a noite tenebrosa. Pertencíamos à terra. Nunca tivemos medo.  

Meu cavalo era o melhor de muitas regiões, regiões a perder de vista. Um alazão portentoso e bravio, cujo simples bufar fazia o resto da tropa fremir de reverência e excitação de batalha.  Era lindo de se ver, quando estávamos com outros cavaleiros - meu alazão bufava, o vapor saindo das narinas, quente derretedor de pedras. Os outros cavalos começavam a bufar também, numa sinfonia estrondosa que fazia ribombar os campos, sacudir as árvores, rolar as pedras. Não havia lobos das cavernas, onças dos pântanos, nem mesmo os temíveis crocodilos dos mil dentes que pudessem com eles quando meu alazão estava no comando. E, onde estivéssemos, estávamos no comando. 

Às vezes me dava saudade de ver gente. Trocar prosa com homens da terra, do tempo, da vida e da morte. Gente forte. São muitas histórias para contar e para ouvir. Ouço muito. Falo pouco. E quanto mais minha fama me antecede, menos falo. De mim, nunca. Mas aqui, agora, já nada mais importa. Posso falar de mim. Posso falar que sempre acerto o alvo. Que não tocaio, não atiro pelas costas, nem em bicho. Já enfrentei um touro raivoso das pradarias. Até hoje, tantos anos depois, as feridas ainda doem, a  me lembrar que a morte está a um passo. Às vezes sentia falta do aconchego de uma mulher. Uma mulher também da estrada, como eu. Pra me lembrar da minha humanidade. 

A vida te leva de roldão, como a tromba d’água que surge de repente, rugindo, do nada, levando tudo para o vazio. A vida te leva, mas a morte te recebe. É assim desde sempre. E, de repente, eu, meu alazão, meus companheiros, envolvidos numa guerra crua e sem sentido, como todas as guerras. Era preciso escolher um lado, e, para nós, tanto fazia, ninguém sabia quem estava certo, ninguém sabia quem ia ficar. Só não tinha como escapar.


Os campos, as águas, os pastos, tudo ficou manchado de sangue velho derramado. No ar, não mais cheiro de mel ou frutas maduras, só de destruição e putridez. Até o céu perdeu a cor de lavanda e assumiu um tom violáceo e triste. Depois de meses, os cavaleiros remanescentes, por um ato misericordioso dos Deuses das Pradarias, se encontraram no último campo onde ainda havia vegetação, alguma memória do que a vida fora um dia. Eramos nós e os cavalos, nós, cavaleiros sombrios. Os sobreviventes de um lado e de outro, agora juntos, unidos pela fraternidade e pelo desespero. Cansados de lutar. Exaustos de matar. Enlouquecidos de tanto ver nossos irmãos de terra, sangue e cascos morrerem estupidamente, às vezes por nossas próprias mãos. E desesperançados. Porque não havia para onde ir, não havia como voltar. Alguns choravam silenciosamente, saudosos de seu passado e de seus companheiros. Outros, a face empedernida, olhavam o horizonte, como se estivessem esperando apenas que a Senhora Ceifadeira, a Dona de Todos os Destinos, a Dama do Eterno os viesse arrebatar, abrupta e inapelavelmente. 

Eu, eu não esperaria por nada nem por ninguém. Não acabaria minha história aguardando a Dama do Eterno vir ao meu encontro. Estava transido de frio. Um vento glacial assobiava pelos meus ossos, como uma flauta macabra. E um frio gélido, dos desertos do Leste, vinha de dentro do meu coração. 



Eu não conseguia me mexer. Mas meu alazão me entendeu. Juntos vivêramos, juntos lutamos, juntos apreciamos as belezas e as feiuras do mundo. Juntos iríamos embora, mais uma vez. A noite vermelha nos convidava a dançar. As cordilheiras que nos cercavam nunca foram tão bonitas, seus picos rasgando o céu sem nuvens. Nunca reclamei da vida. Não ia ser agora que reclamaria do fim. 




Essa história foi inspirada na fantástica música Desafio, do não menos fantástico Dory Caymmi. Fez parte da trilha sonora da novela Terras do sem fim - baseada no romance homônimo do (também fantástico) Jorge Amado. Para fazer sentido com a história, tive de mudar a sequência das estrofes. Espero que me perdoem. 

Ouçam esse maravilhoso exemplar da música popular brasileira.

Imagens:
cavalo https://pxhere.com/pt/photo/1327192
cordilheira: https://pxhere.com/en/photo/708385 

Comentários

Ana Luzia disse…
Ah, quanta poesia nas histórias da vida, nos desterros e desertos... lindo!
Anônimo disse…
Parabéns Zoraide muito boa e tocante a crônica. Pude imaginar galopando humildemente na sua história. Vc deve ser uma pessoa de bom coração pra ter feito uma história tão bonita!❤😍
Marcio disse…
Vou esperar a segunda parte desse texto para começar a contagem dos cadáveres.
Clarisse Pacheco disse…
Que prosa linda e lírica, Zô, inspirada mesmo. Adorei.
Albir disse…
Que beleza, Zoraya! Me lembrou também "Disparada" do Vandré, que eu considero um hino.
branco disse…
se atento for, o senhor dori caymmi seguiria a nararativa exatamente como foi sugerida. acredito que ao final não poderia deixar de sorrir em aprovação.
branco disse…
tenho certerza quye se dori caymmi fosse atento, procuraria saber sobre esse texto seu e o leria seguindo a bula. também tenho certeza que ao final ele sorriria em aprovação.
Érica disse…
Uau! Que poético! Surpreendente. .muito diferente de tudo que já escreveu (pelo que me lembro). Estava inspirada, hein?!