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A CASA DAS OITO MULHERES >> Sandra Modesto


Havia na Avenida 27, numa pequena cidade do arraial de São José do Tijuco, uma casa. A princípio, casa das sete mulheres. 

Naquela época, 1974, era questão de honra para um homem casado, com família constituída, ter uma casa "própria" financiada. 

Foi mais fácil e acessível comprar uma casa velha e reformar. Mudaram. Na casa, uma sala pequena. 

No único banheiro, azulejos floridos. 

Uma cozinha que aos poucos avermelhou-se. Geladeira vermelha, fogão vermelho, mesa e armário vermelhos. Muitos sorrisos espalhados escancarados em cada mulher. 

E a casa sorriu também. Três quartos. O do casal, o dos filhos adotados e crescidos, e o quarto das meninas adolescentes. Amontoadas num espaço delicado. 

Alguns mistérios antes do sono, antes das histórias malucas, antes do amanhecer. 

Pela porta um sol... Hora do despertar, do aroma de canela. Quente pela manhã. Gelado ao entardecer. 
 
A casa das sete mulheres não era a do livro, nem da minissérie. Apenas uma história qualquer. 

Dessas que a gente traz guardada nos álbuns de família, no contar emoldurado do anonimato. 

Todas as casas têm lá seus feitiços, suas tristezas e memórias embrulhadas por lágrimas. Às vezes gargalhadas batendo dentro da gente. 

Em 1983, chegou mais uma mulher. 

Durante 17 anos? 

— A casa das oito mulheres. Muitas mulheres, não? Pois é. 

Aos poucos tudo virou uma página corroída. O marido/ pai/ avô, morreu. 

Oito meses depois, a mulher que fazia chá de canela morreu. A casa foi vendida. Um vendaval espalhou-se no coração das sete. 

Hoje, duas são donas de casa. Outra é professora. Uma assistente social, uma psicóloga, uma advogada. 

Uma diz que é cronista.

Comentários

Laércio disse…
E o que fica de bom de tudo isso são lembranças. Doces lembranças e.... belas crônicas.
Jonathan disse…
Que legal sua crônica e imagino tantas mulheres juntas no mesmo lugar... Eita rs
Unknown disse…
O cheiro do chá de canela, ainda está na minha memória!
Lindo texto .
Simone Evangelista disse…
Que texto lindo, que riqueza de detalhes, me vi novamente na casa.
Albir disse…
Diz, não! É cronista e das ótimas!
Zoraya Cesar disse…
Que história lindaaaaaaa e bem contada demais. Pra gente ler com o coração!