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SABOR ESQUECIDO >> Sergio Geia



Ela saboreava a fruta com tanto gosto, que deu vontade de correr até a geladeira e abocanhar uma também. Era um caqui. Talvez seja até banal a história de alguém em sua casa a chupar um caqui. 

Decerto é. Ocorre que não me lembro da última vez em que eu chupei um. Não faltou oportunidade, afinal, eles estão aos montes nos supermercados. É que nunca houve empolgação minha. 

Além do mais, há bichinhos adocicados aqui em casa que me tentam a todo instante, e tomaram de assalto o lugar das frutas. Depois do almoço, sempre me vejo à cata de chocolates. 

A cena dela devorando um caqui com tanto gosto era extraordinária e bela. 

Não resisti. 

Chupei-o, talvez, com um prazer até maior que o dela. E algo simplesmente magnífico aconteceu: o sabor, não era de um caqui. Havia mais. 

Sempre que ia à casa de minha avó, na Barão da Pedra Negra, dava uma olhada no pé de araçá que ela tinha no quintal. Se houvesse um araçá amarelinho, apanhava. O maduro era doce. O verde, azedo. Depois que minha avó se foi, que a casa se foi, que o pé de araçá se foi, nunca mais vi um. 

Lembro também de romãs, ah, como eram deliciosas! Não vejo há décadas. Na Professor Moreira sempre aparecia uma, ou trazida por um amigo da rua, e devorávamos como vira-latas famintos antes de uma partida de futebol, ou nos era dado pela nossa avó, quando, esparramados no chão de sua sala, assistíamos à sessão da tarde. Era bom chupar uma romã. 

Nos fundos da casa de meus pais havia uma modesta plantação de cana, e a cana do quintal de nossa casa era doce. Vez em quando minha mãe insuflava-se de certa paciência e ia descascar para nós. Reuniam-se amigos da rua, primos, parentes, todos ansiosos aguardando a liberação dos colmos. 

Confesso que deu vontade de retornar à geladeira e devorar mais um daqueles caquis vermelhões. Depois descobri. Era muito mais que o chupar de uma fruta doce. Era uma vontade de mergulhar num mundo mágico que já não existe mais. 

Chupei-o, sim, uma segunda vez, e, talvez, com um prazer ainda maior que o da primeira. E algo simplesmente magnífico aconteceu: o sabor, não era de um caqui. Havia mais. Havia sabor de infância.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Mexeu comigo, Sergio. Muito. Só um grande escritor consegue mexer num coração empedernido... Belissima crônica. Belíssima.
Sandra Modesto disse…
Me emocionei, Sérgio. Muito lindo tudo o que li. "sabor de infância" é um sabor inesquecível. Li em voz alta aqui pela casa. Vou gravar um vídeo com um trecho. Posso?
sergio geia disse…
Zo, o que dizer de suas palavras. Só um muitíssimo obrigado.

Sandra, querida, será uma honra.
Nádia disse…
Que lindo, Sergio, quantas memórias você me trouxe! Só que no meu caso, eram goiabas, jabuticabas e guarirobas... É um tipo de sabor que nunca mais encontrei.
Vc realmente é um escritor mágico: consegue pegar uma coisinha tão desprentenciosa como uma fruta e, no abracadabra das palavras, traz gostos e cheiros a memoria e saliva à boca, para depois, num golpe de mestre, transmutar tudo em nostalgia e saudade de uma época em que viver era tão simples!
Albir disse…
Esses resgates inesperados da infância têm a força de epifanias. Belo texto!
Clara Braga disse…
Lindíssimo texto, Sergio. Me transportou para a minha infância em busca de pés de amora!!
sergio geia disse…

Nádia, às vezes essa magia acontece (nem sempre) e isso é uma delícia.

Obrigado, Albir; a infância é um universo a ser explorado.

Clara, a crônica desperta essa experiência no leitor: o resgate de histórias movido por sabores esquecidos.

Unknown disse…
Meu sabor de infância é de maçã que meu pai trazia de Maceió para nós em Paulo Jacinto-AL. Não esqueço de quando todos os sábados à tarde eu e meus irmãos tomávamos banho e íamos espera-lo na pracinha da rua. Ainda hoje procuro aquele cheiro de maça, o sabor de minha infância!
sergio geia disse…
Que delícia de comentário. Espero que encontre aquele cheiro de maçã, e tantos outros sabores da infância. É tão bom...