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UM POVOADO. UM CIRCO. ERA UMA VEZ. 1ª PARTE >> Zoraya Cesar

Nuvens de poeira ocre podiam ser vistas ao longe. Não havia árvores ou montanhas que ilustrassem aquele quase fim de mundo, que fizessem daquele recanto um lugar bucólico. Não. Tudo era poeira, terra seca, pó. As gentes do lugar adaptavam-se à geografia e ao clima – pessoas simples, planas, semi-áridas e silenciosas. 

Que, assim como a terra, entraram, também elas, em polvorosa, ao perceberem que as nuvens não sumiam ao léu, mas se aproximavam, lentamente. 

Ajuntaram-se para esperar: moleques remelentos de barriga de fora e olhos esbugalhados; meninas que já nasciam com as mãos calejadas, preparadas para as duras fainas da casa; mulheres que poderiam ter 20, 30 ou 60 anos imprecisos, todas envelhecidas precocemente; homens que trabalhavam desde antes de o sol nascer até o sereno baixar. Cada um deles inconsciente da monotonia da existência: não havia tempo. 

Nasciam, trabalhavam, morriam e eram enterrados por ali mesmo, naquele povoado que tinha pouco menos de uma centena de casas, que variavam apenas de tamanho. De resto, eram todas iguais: uma porta, uma janela, uma chaminé. Mas a cor era sempre a mesma, um tom de cinza sujo e triste. Nada acontecia ali. Nunca. Nada. Até que. 

Enfim, a poeira deixou antever o que escondia: um ônibus caindo aos pedaços, um tanto descascado; uma parelha de cavalos magros e desenxabidos; uma carroça coberta. No entanto, o que chamou a atenção foi uma única palavra mágica, escrita nas laterais do ônibus:

CIRCO

A palavra foi murmurada de boca em boca, delicadamente, como se temessem que um som mais brusco fizesse desaparecer o inusitado grupo, uma miragem a se desvanecer na poeira. As crianças, sempre mais corajosas – ou curiosas, ou simplesmente menos cansadas – aproximaram-se, olhando, perscrutando, os mais velhos até perguntando uma coisa ou outra. Os recém-chegados pararam um pouco afastados, o suficiente para despertar interesse e, caso necessário, fugir, dependendo da receptividade do lugar. Quem já foi recebido a pedradas entende a louvável precaução.

Voltaram, as crianças, com poucas palavras, bastantes para os habitantes, não acostumados a abrir a boca ou os ouvidos para o que não fosse essencial. O circo ia ficar uma semana, pois os artistas precisavam descansar, os cavalos também, e, em troca de hospitalidade e alguma comida, a trupe faria uma apresentação. Não tinha leão nem elefante, apenas um vira-lata de focinho magro e olhar esfaimado. Mas tinha palhaço, tinha mágico e uma bailarina que usava maiô com brilhos e penas. E que arriscava a vida em algum aparelho perigoso que as crianças não souberam explicar o que era (os meninos deixaram de prestar atenção  ao escutarem a palavra “perigoso”; as meninas, “maiô com brilhos”).

Nunca a imaginação dos habitantes de Monaxiá
fora tão colorida, tão intensa, tão... onírica
Naquela noite, todos os olhos permaneceram abertos. Os do povoado, porque pensamentos incomuns saltavam de suas mentes pelas órbitas, queimando-lhes as retinas. Os dos artistas, porque, quando o cansaço é demasiado, o corpo se recusa a acreditar no repouso.

O dia amanheceu, o céu de um azul atípico, brilhoso, ameno. Pios de nambus e pintassilgos, até àquele dia inapreciados, encantavam o ambiente. Havia, indubitavelmente, algo diferente no ar. E na terra. Pois a tenda do circo estava sendo armada. 

Cresceu no coração dos habitantes uma vontade irreprimível de ver, tocar nos artistas, assegurarem-se de que não tinham sido mais uma das assombrações trazidas pela noite. Mas não, não era uma ilusão. Lá estavam eles, atarefados e compenetrados, fazendo-se de desapercebidos. Até que um homem alto e grisalho, ainda forte, que parecia ter uma etiqueta escrita com a palavra “chefe” na testa, largou o martelo, num gesto grandiloquente e teatral, voltou-se para a plateia e disse, num tom de voz solene e ensaiado:

- Senhoras e Senhores, Meninos e Meninas, honoráveis habitantes de Monaxiá, estamos preparando uma apresentação inesquecível, tonitruante, inolvidável, impremeditada para a noite de hoje. Tudo o que precisamos é de sua generosidade. Que não precisa ser apenas no vil metal, pois sei que suas posses são reduzidas, mas que pode se concretizar em alimentos!

Parou, sem fôlego e esperançoso. O honorável público não entendeu – por desconhecimento do vernáculo – o que dizia o imponente senhor, nem reparou que as estranhas palavras não faziam sentido. Mas suas mentes práticas perceberam a mensagem sutil. E, naquele dia, os artistas, e até o cachorro, tiveram o que comer. Afinal, saco vazio não para em pé, e todos queriam ver o espetáculo.

Na verdade, por mais ansiosos que estivessem para ver palhaços, malabaristas, mágicos, o que todos queriam ver era a bailarina e seu número arrojado. Perigoso. Mortal. 


Continua dia 24 de agosto. 

Pintura: Le Cirque - Marc Chagall



Notinha sem qualquer importância: “polvorosa” vem do espanhol ‘polvo’, do latim ‘pulvis’, pó, poeira.

Comentários

Unknown disse…
Adorei o colorido do texto ate agora... Esperando ansiosamente pela segunda parte
Marcio disse…
Se a intenção era prender a atenção do leitor até a próxima parte do texto, conseguiu.
Mas isso é muito fácil para a Zoraya.
Carla Dias disse…
Adorei a primeira parte, me pareceu deveras esperançosa. Porém, segundas partes tendem a virar tudo ao avesso. Na expectativa... ;)
Ana Luzia disse…
que incrível, é como estar a espera da vida acontecer!
Burrus disse…
E eu que achava que polvo fosse um peixe com um monte de patinhas. Putz!
Clarisse Amador disse…
Tem um quê da "Banda" do amado Chico...
Anônimo disse…
Mto leve, espero q haja um romance no segundo capitulo!!

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