quarta-feira, 1 de agosto de 2018

REFÚGIO >> Carla Dias >>


Livros são bons esconderijos. Há tantas ruas, vielas, rodovias. Há tantos cômodos, lojas, cafeterias. Prédios localizados em página qualquer. Conversas que você não teria nem mesmo com os melhores amigos.

Acontece de se tornarem refúgio, mesmo quando a alma nem sabia que precisava de um.

Há o que vive somente nos livros, como aquilo que vive em segredo no dentro da gente. Então, tem personagem que enlouquece, faz as malas e muda de país, deixando um tudo e vários alguns para trás. No capítulo seguinte, ele já é outro, com a catarse completa da melhor maneira possível. Com uma esperança jocosa morando nele, do parágrafo seguinte até o FIM.

Mesmo quando o livro abriga história acontecida, ele faz mágica. O tempo que gastamos ao mergulhar naquele ocorrido é bem diferente daquele que as telas de televisão e noticiários oferecem. As palavras cuidam melhor do acontecimento. O olhar observa com mais atenção o desenrolar da trama.

Livros, para quem mantém uma relação íntima com o ritual, aumenta consideravelmente o consumo de café. Às vezes, inspiram posições peculiares, depois de um tempo na leitura e a necessidade de mudar de posição. E, sim, há quem brigue com o escrito, discuta com o personagem, jogue o livro contra a parede e se remoa de culpa, dois segundos depois, enquanto o recolhe com todo cuidado.

Alguns dizem que eles servem apenas como distração. Discordam deles aqueles que aprenderam mais sobre si mesmos por meio dos livros do que de qualquer outra maneira. A leitura de um livro é uma das formas de se espantar solidão, ao convidar tantos para frequentarem o tempo que dedicamos a ele.

Há tantas ferramentas que permitem nos conectarmos uns aos outros, mas há relações que pedem que nos demoremos mais ali, onde nasce um sonho, um desejo; ou ali, onde o desfecho é feito soco no estômago e nos provoca sensações que recusamos visitar durante a rotina.

Livros abrigam invencionices habilmente misturadas ao que é real. É uma construção de realidades de pessoas que não existem, mas poderiam ser nossos vizinhos ou familiares. Acontece de eles o serem. Nesse caso, eles abrigam verdades habilmente misturadas a uma narrativa que as enriqueça.

Acontece também de alguém morar em livro. É que existe quem se inspire em uma pessoa para criar um personagem. É como sonhar o outro, alcançá-lo com a intimidade de quem parou, observou, percebeu e se encantou a ponto de escrever centenas de páginas de uma história onde esse alguém seria protagonista. É permitir que o outro protagonize o afeto de quem enxerga enredo nesse sentimento. Porém, como tudo nessa vida se debruça no Yin e Yang, o mesmo serve para os que seduzem pela crueldade que alimentam.

Dizem por aí que livros são bobagens, que saber deles pelo resumo é economizar tempo para momentos mais divertidos. Quem diz isso é porque nunca leu um livro que lhe roubasse o desejo de nunca chegar ao fim da história. Nunca gargalhou alto ao ler aquela frase que nunca será descartada pela sua memória, ou chorou copiosamente naquele desfecho enredado por ousadias que gostaríamos de cometer na nossa tão comportada realidade.

Histórias valem a pena. Livros dizem isso e eu acredito. Mas essa sou eu, alguém que já nasceu mergulhando no outro, e que, ao descobrir os livros, descobriu-se alguém.

Imagem: Reading by Lamplight © James Abbott McNeill Whistler

carladias.com

Partilhar

4 comentários:

Anônimo disse...

Carla Dias, muito bom o tema escolhido para "a da semana" desta semana (sic). Me identifiquei de imediato. Moro em vários livros já lidos e relidos, me refugio, prazerosamente, sempre nas leituras. Valeu, escritora.

Abraços,
Enio

Unknown disse...

Concordo! Os livros são ótimos companheiros!

Unknown disse...

Concordo!os livros são ótimos companheiros!

Carla Dias disse...

Enio, que as casas-livros que o recebem sejam das mais reveladoras e sábias. Beijos e obrigada pela leitura e pelas palavras.

Anônimo... Sim, eles são ótimos companheiros. :)