sábado, 11 de agosto de 2018

VOCÊ VAI GOSTAR >> Sergio Geia







Bom, não sei se vai. Talvez sim, talvez não. Talvez você goste apenas do “Você vai gostar”, e não goste de todo o resto. Talvez você já conheça, gostou de primeira, goste, e aí vai desgostar de tudo, porque simplesmente o que escrevo hoje não vai lhe interessar. Ou talvez você desconheça. Então, nesse caso, desconhecendo, talvez você goste, quer dizer, goste de conhecer e acabe gostando de tudo, do “Você vai gostar”, e do que escrevo hoje. Você vai achar que valeu a pena ler o que escrevo hoje simplesmente porque valeu a pena conhecer “Você vai gostar”. Irá me agradecer, quem sabe até irá me oferecer um vinho, ou, talvez, não me agradeça, nem me ofereça um vinho, mas goste, goste de tudo, especialmente do “Você vai gostar”.
Foi na Igrejinha do Bom Conselho, no fim de um ano lá atrás, um fim de ano igual a todo fim de ano, comemorações mil, abraços, desejos de um ano melhor, canapés, até cervejinha rolou. Chico Salles, depois de beber umas, tratou de iluminar a noite. Grudou no violão perdido sobre uma cadeira e começou a tocar. E mandou muito bem, sambinhas, Alcione, Jorge Aragão, mas de repente, um pouco atabalhoado com as cifras, ele começou: “Fiz uma casinha branca lá no pé da serra pra nós dois morar...” e iluminou a nossa noite. Foi lá, na Igrejinha do Bom Conselho, numa noite dezembrina para lá de quente, entre amigos e colegas de trabalho que eu a conheci.
Um dia, sozinho aqui em casa, peguei o violão. Como não a conhecia bem, foi um desastre; saiu uma coisa feinha, sem ritmo, afinação. Não desisti. Pesquisei e descobri uma gravação do Renato Teixeira — que é de Taubaté, pelo menos de coração (minha mãe diz até que foi sua amiga, do Renatinho, naqueles tempos idos, e deve ter sido mesmo porque ele sempre está por aqui, no Chafariz), cantando “Você vai gostar”. Aprendi, e nesse caso se aprende repetindo, repetindo, encontrando a melhor cifra, transportando o tom, e hoje, talvez seja ela, “Você vai gostar”, uma das músicas que mais causa emoção nas pessoas quando me ouvem cantar — não, não canto nada, apenas arranho amadoristicamente um violão, em festinhas, em reunião de amigos, de vez em quando.
Muitos a conhecem como “Casinha branca”, em razão de “Fiz uma casinha branca lá no pé da serra pra nos dois morar”, mas ela nasceu mesmo “Você vai gostar”, mesmo porque “Casinha branca” é outra, do Gilson, lembram? “Eu tenho andado tão sozinho ultimamente, que nem vejo a minha frente, nada que me dê prazer”, deprê braba, e no refrão, “Ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela, só pra ver o sol nascer”.
Você vai gostar” é uma das coisas mais lindas que a criatura humana já produziu. Essa criatura, luizense de São Luiz do Paraitinga, chama-se Elpídio dos Santos, escudeiro de Mazaroppi. A dupla fez coisas lindíssimas; uma que adoro diz: “A dor da saudade, quem é que não tem, olhando o passado quem é que não sente saudade de alguém”. Havia um programa (nem sei se existe ainda) na Rádio Difusora de Taubaté, nas primeiras horas do domingo; lá estava ela desfilando sua simplicidade na voz caipiríssima do Mazaroppi.
Você vai gostar” você pode ouvir nas vozes de Renato Teixeira, Matogrosso e Mathias, Nilton César, Fafá de Belém, Sergio Reis, Almir Sater, Grupo Paranga, a escolha é sua. Prefiro a do Renato.
Ouça. Você vai gostar.


P.S.: A mesa está pronta. Preparei uma massa para nós. Trouxe o vinho?






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