quinta-feira, 9 de agosto de 2018

DESTINO>>Analu Faria

A secura do cerrado me fez prestar atenção naquele folha verdinha, não tão minúscula quanto deveria ser. Um verde que se destacava daquele jeito era quase uma indecência naquela falta de chuva, um exagero fogoso da natureza balançando a saia na direção dos humanos ávidos por cor.

Pendurada num galho que saía de outro galho que saía de outro galho, a folhinha era a única remanescente verdíssima de sua árvore e deveria sentir uma solidão tremenda, porque um verde tão destacado e bonito num meio cinza daquele de nada servia. Se tudo ao redor era daquela cor sem graça, de que adiantava ser exuberantemente verde? Será que a folha, no alto de sua espetacularidade, teria desejado ser cinza como as outras, opacas como as outras? Será que um dia quisera ser seca como as outras? 

E se a solução para a suposta solidão da folha (vamos supor que eu estivesse certa e, nesse caso, vamos  assumir que a folha se sentisse profundamente sozinha) não fosse mudar de cor, mas de lugar? Talvez  se a folhinha caísse fosse possível encontrar uma ou outra de suas folhas irmãs ainda esverdeadas  no chão. Era um risco. A maior parte das folhas que caíam encontravam seu destino em algum rastelo ou vassoura e, se não tivessem tal sorte, certamente ficariam amarelas ou marrons antes de se encontrarem em sua verdejante circunstância.

O vento batia na folha que não parecia ter tanto apego ao galho que a segurava e, como ele, ela balançava, balançava a cada lufada direcionada a refrescar os humanos e testar equilíbrio das árvores. Cair, a folha não caía. E eu não soube dizer se ela quisesse. Aliás, não soube dizer se a folha uma dia  houvesse desejado ser marrom, ou cinza ou amarelada, nem se se sentia mesmo sozinha com sua exuberância a ser vista apenas por alguns humanos atentos. Fui embora antes que a folha pudesse me dar qualquer indício maior de sua vontade, a não ser que eu considerasse um indício aquele perigoso balançar o vento. 


Partilhar

2 comentários:

Carla Dias disse...

Fiquei curiosa pra saber o que aconteceu com a folha verdinha, o que ela resolveu ou resolveram por ela. :)
Mas, sim, também refleti sobre como o olhar do observador é importante, para ele mesmo e para o observado.

Francisco disse...

Que lindo! Bem contemplativo... A natureza é uma inspiração infinita.