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A RUMINAR ESPERA >> Carla Dias >>


Trata-se de um desespero. Não de um desespero qualquer... desespero.

A grande questão aqui é que não se sabe o motivo dele. Daí que coração dá de se render à taquicardia, pelos se arrepiam como se fossem tocados por vento de inverno austero, estômago reclama, olhar nubla.

Há esse som ao fundo: murmúrio oriundo da interação forçada entre prisioneiros de fila longa, das que saqueiam cerca de duas horas da vida daqueles que precisam encará-la.

Que desapontasse, não seria problema. Que sentisse, reverberasse, fosse inundado por incongruências, encharcado por levantes emocionais. Que desalinhasse roupas e frustrasse planos, cutucasse esperança preguiçosa. Que assim fosse, contanto que houvesse movimento outro, que não esse de um passo a passo de espera que dará em nada mais do que na conclusão de uma tarefa de rotina de indivíduo dedicado a completá-la e em boleto quitado.

Medita-se:

cabem em um coração
partido
coisas usadas
e diversas
coisas diluídas
em lembranças
inventadas
documentadas em folhetins
do esquecível


É o silêncio que pesa. Esse silêncio habitado por murmúrios de desalentados sujeitos à espera de, ela que não há como encurtar, nem mesmo definir seu tempo de duração. Definir o isso e o aquilo é jeito para se entender o isso e o aquilo. Definir o quem não é o que acaba em acontecimento. Mora sempre no mistério. Provoca a espera mais cruel, que é a espera absorvida por urgência não identificada, apesar de estar claro qual é seu alvo, a busca, o desespero ímpar que provoca tanto com tão pouco.

Um passo. Dois passos. Três passos. Um minuto. Dúzias de minutos. Três discussões. A fila segue. O tempo se perde nesse vazio que não consegue se aquietar. É vazio debochado, dos que ficam cutucando, cutucando, cutucando:

Sabe quem sou? De onde venho? Por que estou aqui? Sabe que vou falar e falar e falar e reclamar e reclamar e reclamar até que me preencha com certo desespero, porque me alimento com gosto dele? Sabe?

Sabe-se.

Vazio é espaço estranho. Vazio do dentro de uma pessoa - que sente um tudo de uma só vez - é como se anjo e demônio dialogassem, ficando acertado, uma pinga com mel e um copo de leite quente depois que, para sair da rotina, um se passará pelo outro, durante algumas filas... horas. Fetiches de anjos e demônios desarmonizam ser humano com desespero que é mais, muito mais do que um recorrente desespero.

É vivo... vivo que só ele.

Não pode correr. Movimento é de um passo de cada vez, na cadência da espera burocrática. Às vezes, anda... em outras, desanda. Filas são lembretes de que não se pode estar onde se gostaria quando se deseja. Elas bastam para desmentir listas de manual de autoajuda. Ninguém estaria aqui se a vida concedesse realização a todo desejo desejado.

Estaria onde?

... braços albergues... anfitriões de abraços-catarses... arrebanhadores de tempestades interiores... bagunçadores de certezas inúteis... mãos emaranhadoras de cabelos... bocas revigoradoras por palavras-liberdade...

Desejar é se sujeitar ao desapontamento. Desapontamento é sentir desespero, mas não qualquer desespero... aquele que não cabe em quem seja, não se adapta ao suportável requisitado para se manter na linha que divide rotina de tragédia. É inflexível no seu desdém irônico-requintado. Amontoa expectativas no sujeito, naquele canto escuro e inativo, que é para mostrar onde mora o perigo, antes pouco que ele abocanhe a sua presa. É para provar que o perigo gosta de cenas de ação nascidas da austeridade do vazio combinada ao peso do silêncio.

Que silêncio pesa.

Há dias em que seu peso é absurdamente difícil de se suportar.

Dessa impossibilidade de suportar é que nascem os gritos.


carladias.com


Comentários

Anônimo disse…
"a ruminar espera" emociona.

Abraços,
Enio
Carla Dias disse…
Enio, agradecida e muito. Beijo.

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