quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Dos desejos das grávidas >> Kika Coutinho

Não é que me dê nenhum desejo especial. Não, não dá. O que sinto, pra falar bem a verdade, é desejo de tudo o que eu vejo.

Estão fui à padaria, e já tinha comprado o que precisava, quando passei pela vitrine dos quitutes. Imediatamente, tive um desejo incontrolável pelo pão de queijo. “Moça, esse pão de queijo está bom, é?” Ela responde que tinha acabado de sair, e eu não hesitei: “Me dê 100 gramas, fazendo o favor”. Enquanto ela depositava os pãezinhos no saco, não pude deixar de ver as mini-coxinhas ao lado. Pronto, de novo aquele desejo incontrolável. Meu Deus, tenho que andar com aquela coisa de cavalo nos olhos — sabe? — que não te deixa olhar para o lado. “Moça, dá pra pôr uma coxinha aí dentro?” Ela sorriu e tascou o salgadinho no saquinho. Quando já estava pesando, foi que vi, ao lado da coxinha, uma bandeja superapetitosa de bolinhas de queijo. Não que eu quisesse comprar 100 gramas de bolinha de queijo, não, eu só queria uma, umazinha daquela ali. Acho que é uma sensação meio de cleptomaníaco, sabe? Você precisa ter aquilo a qualquer custo. Implorei pra ela: “Escuta, sei que é um pouco chato, mas não rola pôr uma bolinha de queijo aí nesse saquito, não?” A moça ficou sem graça: “Aí você está me complicando”. Ai meu Deus, gelei: “Mas, moça, finge que caiu, esbarrou na bandeja e caiu uma, você nem viu... Caiu, ops, caiu”. Ela sorriu, mas não cedeu. Tentei uma última cartada: “Olha só, moça, eu vou te ajudar, todo mundo pode deixar cair uma coisa, e, de repente, ninguém nem vai te notar, quer ver?” Eu falei e, em seguida, plaft derrubei o porta-guardanapo e o porta canudo no chão, com tudo. “Ai, desculpe, desculpe, eu ia falando enquanto abaixava para pegar e tentei olhar de rabo de olho a moça, ainda dei uma piscadela pra ela entender a deixa, mas nem sei se a coitada viu.” Ela estava rindo muito quando me devolveu o saquinho.

Eu, quase que emocionada, não sabia se ela tinha posto a minha bolinha de queijo ou não. Senti medo de abrir o saquinho e não encontrar, ali, a bolinha de queijo. Demorei a abrir com medo da frustração. Carreguei aquele pequeno pacote como quem carrega seus mais finos cristais e, enquanto ainda não sabia o que havia dentro, sentia uma mistura de esperança e pavor tão forte que quase desejei não abrir nunca o saquinho da padaria.

Foi só no carro, já sentada no banco do motorista, que criei coragem... Abri, olhei devagar, e qual não foi a minha surpresa ao notar que tinha a coxinha e mais duas bolinhas de queijo. Duas! Eu repeti em voz alta, como que compartilhando com a minha pequena filhota a alegria de existir gente boa nesse mundo. Devorei o quitute que, mesmo frio, era o mais saboroso de todos os tempos.

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3 comentários:

Cristiane disse...

"Não era mais uma menina com um livro (ou com um bolinho de queijo): era uma mulher com o seu amante". Sim, isto é Felicidade Clandestina!

Aqueles pequenos pedaços de alegria, alegriazinha miúda, que tornam a vida mágica, mesmo no meio da gripe suína, do trânsito infernal, da azia...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, ainda bem que a gravidez só dura nove meses. Se fosse mais, corria o risco de você subverter as leis de convivência desse mundo. :) Mais uma crônica que vai levando a gente assim como você levou a moça da padaria.

Amor amor disse...

Eu também colocaria duas bolinhas de queijo pra ti, Aninha, hahaha! E a Cris lembrou super bem, "era uma mulher com o seu amante". Querida, acredite: esses desejos podem aumentar com a gravidez, mas mesmo não estando grávida, bolinhos de queijo saídos na hora, e mini-coxinhas são irresistíveis, querida!

Beijinhos doces cristalizados, para você e para a bebê!!! :o*