domingo, 23 de agosto de 2009

A ESTRANHA >> Eduardo Loureiro Jr.

Eduardo Loureiro Jr. e Carla Dias - foto de Rubia EliasCheguei de surpresa. Bom, pelo menos essa era a minha intenção.

Não gosto de surpresas. Considero um roubo de expectativa. Quem faz uma surpresa tira, do outro, o prazer de esperar. E quantas vezes o prazer maior é justamente esse prazer dos pais que esperam o filho -- principalmente o primeiro -- por quarenta semanas. O prazer da criança que caminha até a sorveteria antecipando os sabores. O prazer do jovem se preparando para o show de seu ídolo. O prazer dos namorados que se arrumam para o primeiro sexo. Tudo isso acontece sem surpresa, mesmo que haja outras pequenas surpresas envolvidas -- porque sempre há. Quem faz surpresa guarda só para si esse prazer. E eu nunca quis ser um estraga-prazeres.

Mas com o Tempo -- esse senhor surpreendente mesmo quando não nos rouba a expecativa (como é que ele consegue isso?! -- aprendi que o meu gostar não é o gostar do outro. A gente dá uma coisa não para receber a mesma. Esse é o problema da Pena de Talião ("olho por olho, dente por dente"): é simplesmente impossível retribuir o igual com o igual, e qualquer tentativa parece ridícula, algumas vezes cruel. Por que haveria de receber peixe aquele que dá peixe? Peixe, ele já tem. Quem dá amor e quer amor de volta é um impostor: diz que dá aquilo que nem tem. A Justiça, assim com maiúscula, irmã do Tempo, também maiúsculo, não cai em círculos viciosos, avança sempre, num processo que é uma mistura de toma-lá-dá-cá com desconta-lá, e que ainda está muito distante de nossa compreensão. Com os gostos também é assim: se não gosto de surpresas, não preciso privar delas as pessoas que gostam.

Então cheguei de surpresa. E no prazer que eu tive ao esperar pelo momento exato da surpresa, momento de imaginá-la em detalhes, ela teria sido assim... Eu chegaria e ela estaria com a cabeça abaixada, corpo curvado sobre a mesa, com uma caneta na mão autografando um livro. Quando a pessoa à minha frente recebesse de volta o seu exemplar, eu estenderia à escritora o meu, e sorriria. Ela ficaria suspensa em um pensamento, De onde o conheço?, depois piscaria os olhos e retornaria ao automatismo típico do que fazia: receber o livro, colocá-lo sobre a mesa, levantar a capa, pegar o pequeno papel com o nome da pessoa para a qual deveria ser feita a dedicatória. Ela leria meu nome, apertaria os olhos com força -- feito quem não está enxergando direito --, olharia para o papel novamente, confirmaria que o nome era mesmo aquele, levantaria a cabeça, olharia para mim, pensaria Mas você não deveria estar aqui!, falaria Mas você me disse que não poderia vir! E eu diria: Surpresa!

Mas não foi assim que aconteceu. Como sou inexperiente em surpresas, cheguei cedo. E as surpresas chegam sempre depois da hora marcada. Ainda tentei folhear uns livros, menos pelo vício antigo de namorá-los, e mais para retardar a ida até os fundos da livraria, onde ela deveria estar se fosse mesmo tão pontual quanto eu a imaginava. Nesses dez anos, eu não podia fazer outra coisa senão imaginá-la. Nesse tempo, eu aprendi a contar com suas palavras pelo menos uma vez por semana. Todos poderiam falhar, e todos falhavam, até eu falhei. Mas você não. Você tinha que estar sempre ali, ajudando minha imaginação a fazer de você uma mulher que nunca se atrasa em sua beleza de palavras. Para quem se vê, assim frente a frente, uma pessoa se veste de roupas. Você, que eu nunca tinha visto, sempre se vestia de palavras. Até para mim mesmo, que sei da verdade, parece uma mentira. Como é possível conhecer alguém há dez anos e não conhecê-lo pessoalmente? Até a pergunta parece falsa, e melhor seria: Como é possível conhecer alguém pessoalmente há dez anos e não conhecê-lo fisicamente? Como assim? -- perguntaria alguém distraído que pegasse a conversa pela metade. Vocês estão falando daquele filme, Nunca te vi, sempre te amei? É incrível como muitas vezes são os distraídos, os loucos e as crianças que falam a verdade. O amor não é, fundamentalmente, esse sentimento romântico com que a gente aprendeu a reconhecê-lo. Sim, pode haver romantismo no amor, ou não. O fundamental é o sentimento de confiança, a certeza de estar ali, e estar sempre. Quem ama assim, ama com justiça. Dá sua presença, não precisa pedir. É assim o meu amor por você. Se não fosse assim, que outra coisa você poderia ser senão uma estranha? Nós dois o próprio título desse seu primeiro romance, Os Estranhos. Afinal, além das palavras escritas em nossos textos e das trocas de e-mails, tínhamos apenas uma conversa telefônica -- em seu aniversaário, lembra? -- e fotos.

Eu poderia ficar esperando mais um pouco, mais um muito. Mas fiquei preocupado com você. Já passavam 10 minutos da hora marcada para o início do lançamento do livro. Não havia quase ninguém no fundo da livraria. Aproximei-me por solidariedade, para ver se você estava mesmo lá, se estava bem mesmo sem as pessoas estarem ali na hora marcada. Fingi olhar livros. Fui caminhando e olhando. Até que lhe vi. Você estava bem. Talvez levemente nervosa -- o que era natural devido à importância da data --, mas bem. E havia duas ou três amigas com você. Tudo tranquilo. Eu poderia voltar para a frente da livraria e retornar mais tarde para encenar o meu papel: você à mesa, eu de pé, o suspense, o reconhecimento...

Mas você estragou tudo. Me reconheceu antes, quando eu dava meia-volta. Você olhou pra mim, com seu livro na mão, a mochila pendurada no outro ombro. Eu viera direto do aeroporto. Certas coisas ainda me parecem incríveis. O avião por exemplo. Você acorda, toma vitamina, resolve pequenas coisas em casa, sai para uma caminhada, retorna, toma banho, almoça, cochila... Aí você entra num avião e, menos de duas horas depois, o céu muda, o tempo muda, o ar muda. Você não está mais em Brasília, está em São Paulo. A um táxi de uma pessoa que você conhece sem conhecer há dez anos.

Então você antecipou a surpresa que eu ia lhe fazer e o surpreendido fui eu. Feito um menino que é pego instantes antes de enfiar o dedo na cobertura do bolo de chocolate. Feito o namorado que se recompõe às pressas porque os passos do pai da namorada se aproximam da sala. Feito o escritor que escreve o que jamais escreveria, tomado pela vontade da personagem.

Você não disse nada, não falou meu nome. Teria mesmo me reconhecido? Eu também não tinha o que falar, não consegui ter o que falar. Simplesmente fomos para o abraço. Um simples abraço. A encarnação do abraço, e do beijo, escritos em tantos e-mails. Carla para Eduardo e Eduardo para Carla agora tinham textura e cheiro. Você me deixou com suas amigas. Fiquei ali com elas. As pessoas parece que estavam só esperando pelo nosso encontro para aparecerem, e você, como anfitriã, tinha que dar atenção a elas. Eu ficaria lhe olhando a meia distância, lhe espiando, voltando a narrar como se você fosse uma terceira pessoa...

O mundo dela é feito de palavras. Não, não compreenda que o mundo dela está reduzido a palavras. É que as palavras dela compõem um mundo que realmente existe. Estar ali, próximo a ela, é estar entre suas palavras e perceber-se uma delas. Lá estavam suas amigas, seus parentes, os personagens de suas crônicas. Lá estava o compositor/cantor que eu só ouvi e passei a gostar por ela tê-lo apresentado a todos nós, seus leitores, nas suas palavras de quarta-feira. Lá estavam muitas outras pessoas -- que sucesso de lançamento! -- que só poderiam ser personagens de seus contos e romances. Algumas parecia mesmo que moravam dentro de uma gaveta ou numa pasta de computador. E lá estava também eu, duvidando de minha própria existência. Seria eu um personagem de Carla Dias?

Mesmo sendo seu personagem, eu seria ainda um personagem escritor. E lá parecia estar também o meu mundo, palavra transformada em gente. Uma de suas amigas tinha uma amiga. Pergunto-me se essa amiga da amiga era mesmo real. Ou seria apenas a personagem sedutora do personagem escritor da escritora? Houve um tempo em que eu escrevia diálogos entre desconhecidos, estranhos (olha eles aí novamente) que se esbarravam no meio da rua, que falavam qualquer coisa um para o outro e daí começavam a se seduzir mutuamente. Pois a amiga da sua amiga, depois de algumas taças de vinho, recusou novo oferecimento do garçom dizendo:

-- Se você colocar mais vinho em minha taça, vai ter que me levar pra casa.

-- Será um prazer.

Sim, eles eram meus personagens. O lançamento do primeiro romance da escritora incluía, além de petiscos e bebidas, a simulação, a encenação de personagens, e de personagens dos personagens. Ou seriam os personagens em si, sem simulação ou encenação, eles mesmos? Que mundo era aquele, meu Deus?! Para onde havia me levado aquele avião?

Retornei à realidade quando chegou... não sei como devo defini-la, isso já me gerou problema em outra crônica, mas digamos que chegou a minha querida e amada amiga que o apagão aéreo de uns três anos atrás me deu de presente. Ela e o namorado meio que me diziam: existe outro mundo além do mundo do além. Era hora de sair da livraria. Mas meu livro ainda não tinha sido autografado.

Peguei a fila e, minutos depois, lá estava eu de pé e ela sentada, cabeça abaixada, corpo curvado sobre a mesa, com uma caneta na mão autografando um livro. Eu fui o próximo. Estendi-lhe o livro. Ela perguntou se eu já havia me visto ali, no final do livro, nos agradecimentos. Ainda não, eu disse. Mas eu senti que me encontraria ali, no livro, antes dos agradecimentos. Eu sempre me encontro nas suas palavras, mesmo que a sensação mais frequente seja a de que eu estou me perdendo. Depois de escrever com uma caneta prateada sobre a página preta, ela se levantou, arrodeou a grande mesa de madeira e me deu um novo abraço. Um abraço para os próximos dez anos?

Algumas horas depois, antes de dormir, apaguei a lâmpada, liguei a lanterninha e abri Os Estranhos. Eu estava ali, na página 8: "Ninguém o abordava, pedia licença. Ninguém o interrompia. Ninguém o alcançava." Eu sempre fui estranho.

Desliguei a lanterninha e dormi.

Agora acordei pra contar essa história, da estranha que eu, enfim, abracei; do encontro com a estranha que, enfim, me alcançou.



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5 comentários:

Carla Dias disse...

Eduardo... Eu poderia escrever um conto em forma de comentário, na tentativa de lhe dizer o quanto fiquei feliz com a sua presença no lançamento do meu livro. Ainda assim, não conseguiria esboçar parte dessa felicidade. E a crônica... Você me emocionou demais com esse amor que é nosso, sim... Porque não sei querer bem sem amar, e acho que você também é assim, né? Coisa de escorpiano?
Mas saiba que fiquei surpresa com a sua presença. Você me enganou direitinho... Só que maior do que a surpresa foi a felicidade em tê-lo por perto num momento feito esse. E não senti como se estivéssemos nos encontrando pela primeira vez... A gente se conhece há dez anos. Uma década de bons bate-papos, de amizade, de confidências.
Obrigada, de coração, por esse presente... Por estar presente.
Bjs!

Cristiane disse...

Que surpresa mais linda, Eduardo! A Carla merece, certamente ela merece. Também a vejo por aqui toda semana e agora fiquei curiosa para ler o livro.

Anônimo disse...

Puxa vida! que emocionante! eu que não conheço nenhum dos dois pessoalmente, agora lendo esta crônica parece que eu estava também lá e que também sou amiga de vocês, engraçado, né?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Continuemos, Carla... :) E o livro está ótimo. Bem legal o apartamento/universo de Alice e Kalé.

É, Cristiane... É bom surpreender surpreendendo-se. Muito bom o livro da nossa merecedora Carla. :)

Ih, Anônima, você também parece que é meio estranha. :) Bem-vinda ao time. :)

Letti disse...

Que delícia, uia!
Dá vontade de ter estado lá pra multiplicar os abraços.
Carla, parabéns pelo livro parido e que ele seja apenas um de muitos, a gente agradece.
beijo enorme pra você!