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DE VITUPÉRIOS [Monica Bonfim]

Li, num livro do Lobato quando criança, que “louvor em boca própria é vitupério”. E acho mesmo de uma total falta de educação ficar um sujeito se autoelogiando o tempo todo.

Acontece que nos tempos que andam, darlings, o pessoal anda achando que a propaganda é a alma do negócio, ou seja: significante de autoestima é ficar se autoapreciando em alto e bom som.

Eu até acho que, em termos profissionais e pessoais, há que se dar uma de galo de vez em quando: fez um gol, tem mais é que comemorar mesmo, e sair cantando o feito. Mas é o feito, não o autor do feito, entendem? Uma conquista, uma vitória (até sobre si mesmo) há que ser sempre comemorada — mas é o fato, é o fato... Ainda acho que tem que deixar a platéia gritar: “o Autor... o Autor”. E aí o autor tem que fazer uma cara de alegria e certa modéstia, e agradecer o elogio feito PELOS OUTROS.

O problema é que eu tenho uma falha: quando não é exagerado demais — porque aí fica ridículo —, eu acredito piamente. Talvez seja porque, sendo próxima a pessoa que se autoelogia, eu acabo por ouvir tanto que acredito compulsoriamente, ou então porque sou indulgente com meus amigos. Ou talvez seja porque esse enaltecimento de suas próprias qualidades me parece uma audácia tão grande — a mim que me critico o tempo todo e que me deprimo quando derrapo nesse policiamento — que penso que deve ser verdade, porque senão... senão o mundo se acaba: como é que alguém tem o despudor de se arriscar a ser desmascarado desse jeito?

Mas as máscaras andam caindo e isso vem acontecendo tanto que andei me lembrando de Dumas quando, descrevendo seus três mosqueteiros, acerca de Portos fala que a única coisa que não se pode fazer é “acreditar em todo bem que ele diz de si mesmo”. E eu acreditei... eu acreditei...

Ah! Não na propaganda enganosa de desempenho dos gaviões da noite — ou do dia. Não nas juras de amor eterno dos sedutores eventuais. Mas nas afirmações de conduta e caráter dos pseudoamigos, na propaganda de índole e integridade dos autodenominados cultos, na autoestima propagada dos aparentemente bem-sucedidos.

O vento de Iansã anda fazendo com que, como D´Artaganan, eu ande me enrolando nos capotes e dando de nariz nas costas dos boldriés dos muitos Portos de minha vida: os ditos são bordados a ouro na frente, mas de tecido comum atrás.

É... O mundo está mais cheio de despudorados do que parece e eu que, como Pessoa, “tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas”, ando pisando com os dois pés na jaca da minha inocência: como é que eu fui acreditar?

Comentários

É, Monica. Mente quem sabe, acredita quem não tem juízo. :)
Debora Bottcher disse…
Monica, querida,
Vejo-me rindo novamente ao reler seu texto. Seu humor sempre refinado ao olhar detalhes da existência humana, é um primor.
E a frase do Eduardo amplia sua visão. Valha-me... Somos mesmo uns inocentes, pois é preciso ter prática na enganação, né? Quem não está do lado de lá, está do de cá. :)
Beijo, bonita.
Kinha disse…
Queridos...muitíssimo obrigada pelas palavras...
Mas Eduardo... viver duvidando de cada palavra é muito cansativo... e há que se pensar que todo mundo é inocente até prova em contrário...risos
Beijos aos dois
Analu disse…
Monica, será que os ventos de Iansã andam varrendo também as máscaras e despindo a verdadeira persona que se apresenta à gente...sei não, mas isso tem acontecido comigo tb. Tanta gente doente pelo caminho. Como eu digo: eu não sou desse planeta, cara amiga! E tenho um grave defeito, não sou tão indulgante como vc...
um beijo cúmplice!
Kinha disse…
Analu, meu bem...a minha indulgência só anda indo até um certo limite...risos

E parece que o vento anda funcionando mesmo.

beijos de pijama de bolinhas
Letti disse…
Moniquildes, acho que o mundo sempre esteve cheio de despudorados, megalomaníacos e chatos, muitos chatos -- porque, cá entre nós, quem fica alardeando feitos se encaixa nessa categoria. A gente é que vive de fases, ora menos crédulos e mais atentos, ora mais desarmados e receptivos.
Agora, é bem verdade também, que a indulgência é alma dos amigos, rs.
beijo enorme

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