domingo, 9 de agosto de 2009

IGUAL PAPAI! >> Felipe Holder

Não gosto muito desse negócio de dia certo pra presentear. Não tenho nada contra dar presentes de aniversário, de Dia das Mães, de Dia dos Namorados, de Natal, enfim, nada contra dar presentes com data marcada. Mas pra mim os melhores presentes, aqueles que a gente nunca vai esquecer, normalmente são os que são dados sem um motivo especial. Às vezes até mesmo sem querer.













Quarta-feira, dia 5 de agosto. Noite quente em Montreal e eu assistindo ao jogo Náutico x Corinthians na telinha do meu computador. Meu filho Eduardo tinha me chamado pra montar com ele um de seus inúmeros quebra-cabeças, mas eu respondi “Papai agora vai ver o jogo do Náutico. Tá certo?” Normalmente ele reclama, mas dessa vez ele disse o seu costumeiro “tá ceto” e foi brincar sozinho.

Jogo nervoso, Corinthians perigoso, papai preocupado. O Náutico perde um gol incrível. Vai acontecer de novo: joga bem mas não consegue ganhar. Melhor perder logo de uma vez, pelo menos a gente não fica nervoso. 40 do primeiro tempo, pênalti para o Náutico. Papai grita “pênalti!”, Eduardo olha pro lado mas continua a montar o seu quebra-cabeça. A cabeça de papai quase quebrando de tensão: “Não perde, Gilmar, não perde esse pênalti!” E ele não perdeu. Papai gritou:

— Gooooooool do Náutico! Gooooooool!

Papai saltou da cadeira. E pulou como se estivesse nas arquibancadas do Estádio dos Aflitos com todos os seus amigos alvirrubros. Imediatamente, Eduardo jogou pro lado as peças que tinha na mão e gritou de lá:

— Êêêêêêê! Gol do Nauco! Êêêêêêê!

E correu até onde eu estava, me dando a mão pra pular também. E ficamos os dois pulando na sala, sob o olhar crítico de mamãe, que parecia pensar “mas que besteira...” Mamãe inclusive chegou a dizer “seu time é Santa Cruz, meu filho”. Mas Eduardo, se ouviu, preferiu não responder. Não era a hora.

Papai continuou a ver o seu joguinho, agora na maior tensão do mundo. Treze jogos sem vitória, estava mais do que na hora de ganhar umazinha. O intervalo passou rápido. Segundo tempo e a pressão do Corinthians era ainda mais forte. Sai já o gol de empate. Papai tomava Coca-cola, tomava sorvete, comia salgadinho, comia os dedos e o tempo não passava.

Eduardo agora estava na mesa, do lado de mamãe, comendo um pãozinho. Contra-ataque perigoso. “Quaaaaase gol do Náutico!”, gritou o locutor. Papai quase pulou da cadeira e Eduardo então gritou de lá:

— Êêêêêêê! Gol do Nauco! Êêêêêêê!

— Não, meu filho, dessa vez não foi gol, não. Quando for gol, papai avisa. Tá certo?

— "Tá ceto"!

Mamãe aproveitou pra provocar:

— E o seu time é Santa Cruz, não é Náutico, não.

Dessa vez ele, não ficou calado:

— É Nauco, mamãe. Não Santa Cruz, não. É Nauco!

— Não, meu filho. Você é do Santa Cruz.

Diante da insistência de mamãe, Eduardo fez valer sua firmeza de dois anos e fechou a conversa com um enfático

— Não! É Nauco! É Nauco! Igual papai!

Mamãe ficou surpresa. Papai quase se acaba de rir. E de contentamento também.

Sim, porque papai nunca “revidou” as investidas de mamãe — que vez por outra tenta transformar o filho em tricolor — pra não confundir a cabeça dele. Papai estava dando tempo ao tempo, esperando a hora certa de tentar conquistar mais um torcedor pro seu time de coração, um aflito coração alvirrubro. E papai nem precisou fazer nada, só torcer, como sempre fez. E ele não fez mais do que acompanhar seu time nos tempos de vitórias e nos tempos — bem mais freqüentes — de derrotas.

O Náutico ganhou o jogo, e papai ganhou um presente. Um presente que vale mais do que mil gols e mil títulos. Um “igual papai”, único e inesquecível.

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9 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que linda história, meu amigo! Além de toda a graciosidade da prosa, ainda confirmou minha crença de que educação de verdade se dá pelo exemplo e não por palavras. :) Bom lê-lo de novo no Crônica do Dia.

Monica disse...

Muito lindo Felipe!
Que vocês tenham muitos outros dias felizes!
Monica

Amor amor disse...

Que gracinha, criança é assim mesmo: faz de tudo pra ter a atenção dos pais, e precisam mesmo. Acho que ele pensou que se sendo igual papai fica mais junto de vc. Então, papai, n esquece: n deixa seu filho brincar sozinho, não. Dá um presentinho pra ele tb. Segura ele no colo, e explica o jogo pra ele. Ele vai até esquecer dos quebra-cabeças.

Beijos doces cristalizados para os três.

Juliêta Barbosa disse...

Felipe,

Sensibilidade e generosidade também fazem gol, aqui fora. Hoje, quando ouvir falar em jogo do Naútico, vou torcer para que ele ganhe, lembrando de você e do Eduardo. Esse "igual ao papai" foi sem dúvida, o melhor presente do dia dos pais. Olha só a sua responsabilidade daqui por diante! Lindo texto. Ganhaste uma admiradora.

Marisa Nascimento disse...

Texto emocionante, Felipe.
Li você poucas vezes, mas é possível perceber que você sempre será um orgulho para seu filho.

Felipe disse...

Eduardo, espero que seu xarazinho siga só os bons exemplos do pai. :)

Monica, seu desejo já é uma realidade. ;)

Amor Amor, pode ficar tranqüila. Papai brinca com ele. Mas às vezes quer ver um joguinho, né? Quanto aos quebra-cabeças, são uma mania. Ele só aceitou explicações de papai na primeira vez. Já é craque. ;)

Juliêta, o Náutico também agradece. :)

Marisa, espero nunca decepcioná-lo.

Obrigado a todos vocês.

Danielson disse...

Bela história de como virar um alvirrubro. Esse sobrinho de Sue vai longe...hehehehehhe

Abraços!

Elzinha disse...

Olá, Abu.

Nossa!!! Que história linda e tocante. Imagine Eduardinho com 30 anos contando para os amigos,em pleno Estádio dos Aflitos, como ele se "tornou" Alvirrubro!!!!

Felicidades pra vocês, sempre!!!!

jcjunior disse...

Eita, que massa, amigo Felipe!
E Eduardo, sobrinhão, com dois aninhos e danadinho!
Que massa, amigão!