sábado, 8 de agosto de 2009

CALEIDOSCÓPIO [Sandra Paes]

Debruçada. Semprei achei essa palavra e imagem muito estranha. Lembro-me da primeira vez, quando criança, em que experimentei seu significado. O céu debaixo das pernas parecia um convite especial a uma viagem transcendental. A cabeça de menina, por certo, não tinha os conceitos na mente, mas a visão de cabeça pra baixo revelava quase que um outro mundo.

Depois disso, as piruetas, as cambalhotas. Estar horas e horas na barra de ginástica não era, como pensavam os adultos por perto, um exercício a mais pra uma menina com vocação de ginástica. Qual o quê! Eu estava mesmo em busca do céu às avessas. Que maravilha poder não sentir a gravidade e ter o céu sob as pernas, de tantas formas e contornos que poderia fazer tantas e tais posições e prender a respiração apenas pelo lúdico movimento de estar no céu de certa forma.

Hoje, contemplando a tempestade lá fora, ouvindo ao telefone queixumes sobre os relâmpagos, me vi bebendo a chuva e em glória única diante dos trovões e relâmpagos que o céu exibia.

De novo, eu e o céu. Esse mar azul onde sonho nadar por tantas vezes. Entre nuvens que parecem flutuar, sigo sóbria e lépida, ao mesmo tempo num mergulho único, e saio banhada de luz e leveza entre as braçadas e movimentos serpenteantes que faço no puro azul do céu.

Vejo, pela televisão, momentos de cebebração pela chegada do homem à lua. Minha paixão pelo cosmos e essa vontade de alma de o virar do avesso me fez vibrar orgasticamente com a frase de Gagarin dizendo: “A Terra é azul!”.

Sim, conheci ali a inveja. Quisera estar em seu lugar olhando o planeta pela janela. Tão maravilhada quanto a menina que descobria o céu entre as pernas.

Fundei ali meu caleidoscópio. Criei ali o desejo já plantado na alma por éons de ver em miríades todas as imagens como reflexos de milhares de espelhos que tudo refletem. Dos pensamentos aos desejos. E eles nem teriam tais nomes. Na imaginação, onde todas as ações são apenas imagens, seu criador nada precisa fazer. Apenas o ato de estar sempre de cabeça pra baixo lhe dá a dimensão que tudo está certo e em seu lugar, ou seja, lugar algum.

Portanto, cessem os chamados de ofertas, de cobranças, de propostas de negócios e lucros, e toda essa conversa sobre vantagens disso e daquilo. Sou uma viajante em céu de brigadeiro, onde não há guerras nem competições de mercado, e nem se ouve falar das coisas dos homens. Essas com etiquetas de preços e valores a serem barganhados como ensinaram os velhos vendilhões dos templos e dos mercados.

Não quero compras nem vendas, não gosto do jogo das apostas como sintoma de vitórias e derrotas, nem pisco pela possibilidade de ganhar só pra mostrar que posso ser a tal. Entre fulano e sicrano, prefiro beltrano só porque não apareceu na opção ofertada. Esse o efeito na escala de valores de quem descobriu muito menina que a vida é apenas a possibilidade de trocentos caleidoscópios, e eu sinto muita saudade de brincar outra vez, sim, de cabeça pra baixo.

Que bom ver tudo de pernas pro ar. Que luxo quebrar com a gravidade de tudo - da Terra, dos objetos, da seriedade de temas e juízos, de tudo que se nomeia como certo e real, de todos os sintomas catalogados como forma de se cercar uma gnose e dar um diagnóstico.

Bah! Cessem os tambores dos anúncios dramáticos ou prenúncios de novidades. Pois a coisa mais certa de todas as coisas, no céu do avesso, pode ser apenas uma possibilidade e, se piscarmos os olhos, tudo se movimenta e se altera.

Por que não experimenta? Arruma a coluna e revela que, mesmo com vértebras tortas, pode-se perder o centro com alegria e ainda rir de tudo que parece esquisito por estar fora de ordem.

Desdigo a virginianice criticada em mim e apenas sorrio, porque, afinal, em não sendo fundadora da ordem, gargalho diante dos arremedos de justificativas de como deveria ser certinha e responsável.

Faço de minha vertigem cotidiana um retorno aos tempos de menina na barra em busca de uma nova visão do céu e da terra.

E per se move...



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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mais um belo texto a partir de quase nada, Sandra. Parabéns!

sandra disse...

Obrigada Eduardo..Esse "quase " nada é fruto de alguns anos de contemplação viu?

Beijo,

Sandra

Marisa Nascimento disse...

Lindo texto, Sandra! Também tenho um caleidoscópio de vida e com ele enxergo um mundo de alternativas coloridas.

Kinha disse...

Sandra...desculpe a demora em ler...o texto é lindo.

Beijo grande

Mônica