quarta-feira, 12 de agosto de 2009

ESTOU PARA... >> Carla Dias >>

A temperatura das palavras a perturba...


Fosse apenas um arruaceiro, dedicado a emparelhar sentimentos vãos - e lançá-los contra os muros do óbvio -, talvez ela não mastigasse nesse tempo o amargor, enquanto encaracola uma mecha de desassossego.

Arrancada que foi da (in)tranquilidade que lhe cabe, agora conta nuvens nos dedos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7... O mundo para e, em vez de descer, enquanto lhe é de direito, ela pisa firme no solo da teimosia e da curiosidade. O que está no avesso assanha o seu desejo em esperar para ver.

Ela: estática. E a chuva cai nas suas faces, que amparam o cansaço dos anos que foram e dos que virão. Ela é assim: ora se atrasa e ora se antecipa, atrapalhando-se com os rompantes da própria existência, como quem prende o dedo na porta e cala o grito, o olhar simulando uma diversão pálida.

Creio que sempre teve esse algo com a temperatura das palavras, como aquelas que ela guarda na memória, desde os arrabaldes da infância, ditas pelas vozes da mãe, das tias, da avó: Que Deus lhe guarde.

Deus a guardou nessa caixinha colorida com laço cor de arco-íris. Em suas mãos, Ele depositou o segredo das coisas mais simples, para que ela pudesse se alimentar de experiências o cotidiano ao vislumbrar a ingenuidade. Só que, no seu coração, Ele tatuou labirintos, onde ela se perde nas noites longas demais da conta ou quando acossada por inusitados acontecimentos.

Nessa caixinha colorida, com laço cor de arco-íris, ela aprendeu a reza, esfolou os joelhos de tanto se ajoelhar. Puiu os dedos de tanto desfiar rosário. Em dias de sol, esconde-se debaixo de tampas de papel machê e molda solicitude. Quer ser desabrigada, dia desses. Desabrigada de sair pelo mundo sem destino, mas com o olhar atento à novidade refletida no horizonte, em tom de desobrigação.

A temperatura da palavra estampada em sua pele. Questiona sempre se os que a cercam realmente sabem sobre o que está tatuado em sua tez. E se eles compreendem que a tez é a cortina que separa o público das atrações principais.

Ela já sequestrou entendimentos, mas isso não deu certo. Desentendeu-se com ele em dois tempos, feito um samba de Cartola. Anda inquietada com a volatilidade das canções de amor, das preces e das bênçãos, da inegável necessidade de alento, companhia, fé, improvisação.

Improvisa um tamborilar sobre a mesa da cozinha. Um tamborilar esgarçado, de preocupação impertinente com a temperatura das palavras. Lá fora: tantos graus de um verão narcisista. A temperatura preferida dos que fogem para as praias, dos que ficam de molho em piscinas, dos que tentam se refrescar aos baldes d’água. A beleza para os que fotografam dias de sol para as revistas de turismo.

Dentro dela, a temperatura é a tecida pelas palavras: um inverno a toca, despudorado esse tal, e a faz pensar em cenários outros que não os veiculados em telejornal ou em comerciais de cerveja e refrigerante. A temperatura é a das palavras à sombra de tantas outras, gélidas, de um jeito bom, de quando se toma banho quente depois de tomar chuva, para então se enfiar debaixo das cobertas e assistir televisão, até cair no sono.

Badulaque tem temperatura da alegria e da alegoria. Distração é coisa morna dentro da gente. Paixão? Essa tem de correr das rimas.

A temperatura das palavras a perturba por pura oscilação. Por teimar em pertencer às estações da alma dela. Dela que insiste em levar a vida como quem anda em linha reta, ainda que, por ousadia de qualquer entidade dedicada a cutucar alma, ela acabe por contar nuvens como quem conta pétalas de flor colhida na quentura das emoções.

Perturbar-se é necessário.




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