sábado, 1 de agosto de 2009

ASTIGMATA [Sandra Paes]

Sob o sol, tento absorver as frases do livro em mãos. O calor quase sempre me leva a concentração. Penso que um mergulho poderia aliviar o desconforto e me devolver a calma necessária internamente pra continuar a leitura.

Removo o chapéu, os óculos, e caminho em direção à azul piscina. O mergulho torna-se lento, e os movimentos sob a água me remetem aos tempos de natação mais frequente. Abro os olhos sob a água e vejo tudo turvo. A água me parecia clara e limpa, mas não é o que percebo. Volto à tona e a luz do sol escaldante parece me cegar temporariamente. E pensar que o brilho dessa estrela é tão intenso que ofusca a presença de todas as demais – essa, a singular diferença entre dia e noite. Assim também parece ser na vida dos humanos e na competição por brilho entre celebridades e anônimos.

Particularmente, prefiro a noite. Gosto da contemplação dos detalhes que o céu em tom escurecido parece revelar. Ah, os detalhes... Sem eles, tudo o mais fica assim: um brilho avassalador e um calor que impede até o livre respirar. Seria apenas parte da condição humana?

O não saber me leva a mexer as pernas, naturalmente, movendo o corpo sobre a superfície das águas tépidas. Preferia que estivessem mais frias. Gosto de contrastes. Até um banho pode revelar sem mais nem menos nossas preferências.

Olho ao redor o verde de toda a paisagem que me cerca e percebo que mal percebo o contorno das árvores. Onde estou mesmo? Por vezes, o deslocamento no ambiente me move a outras esferas e contextos, sem tempo nem porquês. Simplesmente assim, numa viagem silenciosa, sem controle de onde ir e como pousar.

Nado mais um pouco e penso em voltar a ler. (Ah! Tenho que me secar um pouco pra evitar molhar o livro).

Coloco os fones de ouvido pra ouvir uma música, selecionada randomicamente pelo pequeno mp3, e desligo essa mente nem sempre inquieta. Olhos fechados, sinto ainda o brilho do sol. Ele não se apaga nem com os olhos cerrados. Que fenômeno!

Mudo a cabeça de posição e abro os olhos. Mal consigo ver o contorno do gramado. Tudo parece fora de foco. Dupla visão? Os insetos como que desaparecem em seus voos curtos. Deduzo que são pequenas borboletas. Nada sei, de fato. Quando a visão externa se borra, a percepção interna se torna confusa. Por quê?

Pego o livro. Percebo que o título é apenas uma obra surreal borrada. Sem signficado algum, já que o foco que possibilitaria a tradução das palavras e seus significados, desapareceu. Que estigma!

O destino do astigmata se revela em outro filme. Perco a visão externa e com ela me sinto forçar o foco interno à busca de significados como quem caça um tesouro. Pra que essa caça? E quando foi que meus olhos de lince partiram de mim e pousaram em outros reinos? Como era o mundo antes e como é agora?

As cores são mais gritantes, pois as formas se desmancham. Seus contornos deixam de se marcar e o igualar de tudo me remete a um estado interno de ausência de diferenças. E, por isso mesmo, todas as diferenças marcadas pelas fronteiras sociais, financeiras, culturais, essas que nos ensinam a distinguir no olhar externo e interno, ficam muito gritantes. Eu não as fiz, não as marquei, não as escolhi e não as quero. Mas elas estão ai. Que olhar é esse que as denota?

No meu novo caminho astigmata, contornos se tornam irrelevantes. Por um lado mais paz e um grandioso espírito aguçado em busca da verdade. Cada vez mais caço a transparência. Seria efeito do astigmatismo? Será que nos tornamos astigmatas por envelhecer as janelas de uma alma que vai se cansando de olhar para fora e ter tudo tão cheio de rótulos e inumeráveis etiquetas?

Ouso pensar que sim. Meu olhar cansado revela o grego cansaço de minha alma que literalmente prefere os sonhos de outra dimensão. Esses que ocorrem quando nossa consciência dorme ou emigra.

Já não sonho mais com migrações geográficas ou quaisquer mudanças em paisagens terrenas. Me flagro em júbilo diante do silêncio da profundeza das águas, e recordo com graça a descoberta da beleza do fundo do oceano no Caribe, onde cores e formas são realçadas pelo silêncio abissal de águas claras e profundas.

Aqui, sob esse sol escaldante, todas as letras dançam diante do alternado piscar de olhos que pratico pra sondar que olho ainda tem que tipo de foco. A brincadeira apenas me revela que passamos tantos anos apenas brincando de tentar focalizar seja lá o que for, e tentar dar significado àquilo que achamos que vemos.

E de tanto multiplicar todos os tipos de visão e seus infinitos catálogos de nomes e descrições, até ousamos dizer que nos apropriamos do que nomeamos de belo ou não. E de posses e posses vãs, passamos o tempo de mergulho nessa dimensão terceira, onde ainda contabilizamos a experiência como o tempo que a vivemos.

Quanta tolice! E eu apenas olho e nada vejo.



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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que maravilha de texto, Sandra! Vai nos conduzindo do prosaico ao filosófico com uma sutileza adorável. Senti-me carregado por você, nos braços, na leve água da piscina.