Pular para o conteúdo principal

ASTIGMATA [Sandra Paes]

Sob o sol, tento absorver as frases do livro em mãos. O calor quase sempre me leva a concentração. Penso que um mergulho poderia aliviar o desconforto e me devolver a calma necessária internamente pra continuar a leitura.

Removo o chapéu, os óculos, e caminho em direção à azul piscina. O mergulho torna-se lento, e os movimentos sob a água me remetem aos tempos de natação mais frequente. Abro os olhos sob a água e vejo tudo turvo. A água me parecia clara e limpa, mas não é o que percebo. Volto à tona e a luz do sol escaldante parece me cegar temporariamente. E pensar que o brilho dessa estrela é tão intenso que ofusca a presença de todas as demais – essa, a singular diferença entre dia e noite. Assim também parece ser na vida dos humanos e na competição por brilho entre celebridades e anônimos.

Particularmente, prefiro a noite. Gosto da contemplação dos detalhes que o céu em tom escurecido parece revelar. Ah, os detalhes... Sem eles, tudo o mais fica assim: um brilho avassalador e um calor que impede até o livre respirar. Seria apenas parte da condição humana?

O não saber me leva a mexer as pernas, naturalmente, movendo o corpo sobre a superfície das águas tépidas. Preferia que estivessem mais frias. Gosto de contrastes. Até um banho pode revelar sem mais nem menos nossas preferências.

Olho ao redor o verde de toda a paisagem que me cerca e percebo que mal percebo o contorno das árvores. Onde estou mesmo? Por vezes, o deslocamento no ambiente me move a outras esferas e contextos, sem tempo nem porquês. Simplesmente assim, numa viagem silenciosa, sem controle de onde ir e como pousar.

Nado mais um pouco e penso em voltar a ler. (Ah! Tenho que me secar um pouco pra evitar molhar o livro).

Coloco os fones de ouvido pra ouvir uma música, selecionada randomicamente pelo pequeno mp3, e desligo essa mente nem sempre inquieta. Olhos fechados, sinto ainda o brilho do sol. Ele não se apaga nem com os olhos cerrados. Que fenômeno!

Mudo a cabeça de posição e abro os olhos. Mal consigo ver o contorno do gramado. Tudo parece fora de foco. Dupla visão? Os insetos como que desaparecem em seus voos curtos. Deduzo que são pequenas borboletas. Nada sei, de fato. Quando a visão externa se borra, a percepção interna se torna confusa. Por quê?

Pego o livro. Percebo que o título é apenas uma obra surreal borrada. Sem signficado algum, já que o foco que possibilitaria a tradução das palavras e seus significados, desapareceu. Que estigma!

O destino do astigmata se revela em outro filme. Perco a visão externa e com ela me sinto forçar o foco interno à busca de significados como quem caça um tesouro. Pra que essa caça? E quando foi que meus olhos de lince partiram de mim e pousaram em outros reinos? Como era o mundo antes e como é agora?

As cores são mais gritantes, pois as formas se desmancham. Seus contornos deixam de se marcar e o igualar de tudo me remete a um estado interno de ausência de diferenças. E, por isso mesmo, todas as diferenças marcadas pelas fronteiras sociais, financeiras, culturais, essas que nos ensinam a distinguir no olhar externo e interno, ficam muito gritantes. Eu não as fiz, não as marquei, não as escolhi e não as quero. Mas elas estão ai. Que olhar é esse que as denota?

No meu novo caminho astigmata, contornos se tornam irrelevantes. Por um lado mais paz e um grandioso espírito aguçado em busca da verdade. Cada vez mais caço a transparência. Seria efeito do astigmatismo? Será que nos tornamos astigmatas por envelhecer as janelas de uma alma que vai se cansando de olhar para fora e ter tudo tão cheio de rótulos e inumeráveis etiquetas?

Ouso pensar que sim. Meu olhar cansado revela o grego cansaço de minha alma que literalmente prefere os sonhos de outra dimensão. Esses que ocorrem quando nossa consciência dorme ou emigra.

Já não sonho mais com migrações geográficas ou quaisquer mudanças em paisagens terrenas. Me flagro em júbilo diante do silêncio da profundeza das águas, e recordo com graça a descoberta da beleza do fundo do oceano no Caribe, onde cores e formas são realçadas pelo silêncio abissal de águas claras e profundas.

Aqui, sob esse sol escaldante, todas as letras dançam diante do alternado piscar de olhos que pratico pra sondar que olho ainda tem que tipo de foco. A brincadeira apenas me revela que passamos tantos anos apenas brincando de tentar focalizar seja lá o que for, e tentar dar significado àquilo que achamos que vemos.

E de tanto multiplicar todos os tipos de visão e seus infinitos catálogos de nomes e descrições, até ousamos dizer que nos apropriamos do que nomeamos de belo ou não. E de posses e posses vãs, passamos o tempo de mergulho nessa dimensão terceira, onde ainda contabilizamos a experiência como o tempo que a vivemos.

Quanta tolice! E eu apenas olho e nada vejo.

Comentários

Que maravilha de texto, Sandra! Vai nos conduzindo do prosaico ao filosófico com uma sutileza adorável. Senti-me carregado por você, nos braços, na leve água da piscina.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …