quarta-feira, 5 de agosto de 2009

NECESSIDADE DE HOJE >> Carla Dias >

Quando eu era mais jovem, tinha uma necessidade tresloucada que vivia dentro de mim. À noite, ela me tirava o sono. Durante o dia, me distraía do que tinha de fazer.

Essa necessidade também teve suas fases, de acordo com o tempo do meu calendário de vida experimentada. Por exemplo, aos dez anos, eu a chamava “cadê o meu buraco?”. Sei que dar nome a algo usando uma frase, ainda mais com ponto de interrogação no final, não funciona na maioria das ocasiões. Mas, neste caso, tinha tudo a ver com os meus dez anos de idade e a vontade louca de me enfiar num buraco e não precisar lidar com as pessoas. Para mim, os adultos estavam sempre fazendo perguntas menos importantes do que a falta de ar que me pegava de jeito quando tentava entender aonde ia dar o universo.

Mais tarde, a minha necessidade era de livros. Lia tudo o que caía na minha mão, romances água com açúcar, gibis, revistas de música, álbum de figurinhas, bulas, receitas da lata de leite condensado, Herman Hesse, Vinícius de Moraes, Clarice Lispector, Richard Bach, Milan Kundera, Lobsang Rampa... Foi a necessidade por me infiltrar no universo desses escritores que me levou a pegar três ou quatro livros por semana na biblioteca da minha cidade.

Mais do que ler aqueles livros, eu ficava imaginando quem os teria lido. Aqueles números de controles nas capas, a fichinha de retirada e de entrega, os nomes que eu não sabia de quem eram, mas enfeitavam a minha imaginação. Pensava muito sobre as casas, gavetas e bolsas por onde passavam aquelas histórias. E almas... As almas que os sorviam.

Um pouco mais adiante, e a necessidade era de assistir aos filmes da promoção “pegue 5 do catálogo e fique com eles durante 5 dias”. Descobri que adorava as locadoras de vídeo, que era sempre um prazer passar um tempão vendo aqueles filmes, lendo sinopses e ficando bronqueada com títulos horríveis em português e capas que eram um pesadelo, mesmo quando o filme era “de amor”. Obviamente, isso nunca me impediu de pegar tais filmes, vide o “Apaixonado Thomas” e “O Buraco”. Ótimos filmes, péssimos títulos, capas estranhas.

Foi então que chegou essa necessidade que resolveu prevalecer. Claro que continuo querendo um buraco onde enfiar a cabeça, toda vez que tenho de lidar com pessoas que não conheço, mas acho que tenho enfrentado esse problema com mais classe do que a menina bicuda que era aos dez anos de idade.

Certamente, os livros ainda freqüentam minhas necessidades, tanto que não me bastou lê-los, por isso me atrevi a começar escrevê-los. Porém a gana é outra... Muito mais curiosa pelos detalhes, disposta a perder mais tempo em cada um deles, visitar as entrelinhas, hoje a urgência vem de outro canto. É urgência em me embrenhar pelos mistérios que os livros carregam para seus criadores.

Ando cada vez mais envolvida com esse mundo do cinema, dos filmes. Perdi completamente o pudor em relação às sinopses e às capas, e me arrisco, sem pestanejar. Às vezes, as surpresas são daquelas, como ontem, ao assistir “A Vingança de Alexandra”.

Descobri - agora adulta e mais desacautelada do que quando tinha dez anos – que a necessidade pungente e vigente é a de me acalmar um pouco... Desnecessitar. Pode parecer que não, porque sou até que reservada, mas enquanto a tranqüilidade transparece são as necessidades – que sim, hoje são muitas – que fazem baile no meu dentro. Estou sempre pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, calculando um jeito de chegar na hora, mesmo quando ao meu corpo só resta o descanso. A necessidade de valer a pena, de conquistar afetos, de demonstrá-los claramente. E daquelas tardes de sábado regadas à preguiça da mais sonsa, a insônia morando em outra freguesia.

Desvencilhar-me da necessidade turbulenta, criada apenas para amparar o meu passeio por aquele buraco onde vivem as controvérsias da minha própria existência.

Não é a primeira, talvez não seja a última vez que requisito um descanso de mim mesma. Complicado é me dar conta de que, sendo assim, esse descanso é a atual necessidade que me tira o fôlego.

http://www.carladias.com/
http://talhe.blogspot.com/



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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, mudam os filmes, mas eu bem que poderia ter escrito essa crônica. Não tão bem quanto você, é verdade, mas eu estou completamente aí. :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, o nome do filme é mesmo "A Vingança de Cassandra"? Eu não consegui localizar. Qual o título original e o nome do diretor?

Carla Dias disse...

Oi, Eduardo!
Pois é... Quem sabe a gente não divide a varanda com cara para um horizonte bem bonito nesse descanso, falando sobre esses filmes, essas músicas, né? Uma varanda com redes pra gente sossegar a alma. Podemos chamar outros afoitos com a vida para esse descanso merecido e fazer uma festa preguiçosa : )
E claro que eu, que vivo trocando as bolas, me dei conta somente hoje de que o nome do filme estava errado... É A VINGANÇA DE ALEXANDRA (Alexandra's project).

Marisa Nascimento disse...

Carla, você tem o dom de fazer seus leitores irem em busca das suas aulas de arte!

Carla Dias disse...

Ah, Marisa... Ser arteiro é bom que só : )