Pular para o conteúdo principal

HOMENINO >> Eduardo Loureiro Jr.


[download]
(Para ouvir antes, durante ou depois da leitura.)


Qualquer homem é mais homem do que eu. Eu ainda sou menino. Menino que, olhando pelo buraco da fechadura, deu de cara com um espelho e se viu — menino — olhando pelo buraco. Menino que se percebe menino. Homem ainda não.

Mais homem do que eu é aquele que faz barulho com uma britadeira e me arranca de meu sono. Mais homem do que eu é quem faz rua, casa, poste, mesa. Operários em construção são mais homem do que eu. Desempregados com família pra cuidar são mais homem do que eu. Aquele que trabalha dois expedientes é mais homem do que eu. Quem trabalha um turno extra, então, é ainda mais homem do que eu. O jovem descuidado que engravida a namorada, e casa, é mais homem do que eu. O homem comum, burocrático, da casa pro trabalho, do trabalho pra casa, é mais homem do que eu. Até o homem que sente raiva da mulher, e bate nela, é mais homem do que eu. Até o mendigo que pede, até o ladrão que rouba, até o golpista que frauda é mais homem do que eu. O homem que dá a bunda é muito macho pra mim. Mesmo o homem que muda de sexo é mais homem do que eu.

Não se iludam com meu jeito. Eu não me iludo mais. Com a simpatia, com o mistério, com as palavras. São travessuras de menino. Não caiam na rede que eu armo, e em que estou deitado. Tranquilidade que nada! Preguiça, das brabas. Não se encantem pelo canto meu, sou só eu no meu canto com trejeitos afeminados de sereia. Minha inteligência, minha gente, não resiste a uma prova: é tudo malabarismo de ideias. Não façam mais parte dessa trama, me deixem só no palco pra ver se eu desenredo. Parem de aplaudir. Será que não veem que é tudo esquisito: o som, o tom, a cor? Menino vestido de gente grande, adulto interpretando um menor.

Sei — em teoria, sempre em teoria — que a vida não é tão fácil quanto a alheia me parece nem tão difícil quanto a minha de que reclamo. Mas ainda não peguei o jeito. Tudo que não quero é tão fácil que o que eu quero mesmo beira o impossível — e me abismo. Como as pessoas trabalham, como casam, como têm filhos? Não sei. Não tenho a mínima ideia de como conseguem isso. Já nasceram sabendo, fizeram treinamento ou vão só seguindo o exemplo? Parece que gente aprende com gente, mas aí é que está. É justamente isso que não entendo e não acerto. Como é que gente se dá com gente? Como é que conhece, conversa, se envolve, se entende, se compromete?

Quando acordo, me sinto roubado do sonho de que lembrei. Se não falo com ninguém — que dádiva! —, a vida até parece boa. Estou à vontade na distância do que escrevo e na impessoalidade do que consumo. Mas gente mesmo, de verdade, o olho, o olhar, a palavra... Ai, que medo! Gente pra mim é fantasma. Fecho a porta, me deito, me enrolo, me durmo pra me livrar desse mundo. Menino, menino, menino... que entre um sono e outro faz de conta de gente grande.

Eu só vi agora, mas me custa crer que qualquer de vocês não tenha visto. Confessem! Vocês sabiam que eu sou menino. E por menino sempre me trataram, até com bondosa gentileza para com o maravilhoso mundo do Bobby aqui — Bobby Filho, sempre. E quando eu não devia ouvir qualquer coisa, falavam na língua do P, desconversavam, me mandavam arrumar o quarto. E quando se aborrecem, ainda hoje, me põem de castigo, excluído. Pensam que me importo? Fico com raiva, claro, mas no fundo gosto. Dentro do quarto, estou livre de gente. Sou só livros e discos e filmes.

Vamos lá, confessem, me joguem na cara: "Sim, já que você perguntou, é isso mesmo, você não passa de um menino." Estou esperando... me digam! Ein? Ein?! Ein!

Ou será que vocês não são adultos, são só meus amiguinhos, pobres crianças também?

Comentários

Tia Monca disse…
:o)
Bj,
Tia Monca
Alba Mircia disse…
clap, clap, clap! impossível nào aplaudir, bobby. ouvi-lo levou-me àquele teatro da 44th - ao final, de pé.
Juliêta Barbosa disse…
Eduardo,

Belíssimo texto, interpretado magistralmente pelo ator que, se assume menino, para esconder a beleza do homem que é... Ou será que é o contrário: se assume homem para esconder o menino que é...

Não, eu não me iludo! Mas, às vezes – quase sempre -, tenho a impressão que o homem coloca o menino para dormir, só para não ouvi-lo pedir colo...
Karina Loureiro disse…
É preciso ser homem de verdade para encara de frente conlitos de infância, correr atrás de quem se ama, arrependido de ter ido embora, sem a menor certeza de um sim. É preciso ser "macho", "cabra dos bons" para sair das viagens das letras e sites e se aventurar em viajar só e encontrar gente e ser guiado pela intuição.
Andei aprendendo que quando os desafios nos chegam, é porque já estamos prontos para ele. E que todas as respostas estão disponíveis, basta ler.
Que seu homem e seu menino convivam em harmonia! Te amo!
fernandodemorais disse…
Essa foi certeira, amiguinho. Doeu bem.
Grato pelo espanto, pelo aplauso, pela impressão, pela declaração de amor e pelo alvo. :)
Ah, Eduardo! Inspiração ou revelação? Você é uma caixinha de surpresas...E ainda bem que essa doce magia surpreende e não engorda. :)
Autorrevelação, Marisa. ;)

Muito bem também, Rafael. :)
Anônimo disse…
... sei não, menino, cabe mais uma nessa rede?...
Carla Dias disse…
Ah, que me deu uma alegria daqueles por saber que não só eu sou moleca, apesar de parecer gente grande.
Seu texto parece leitura do meu dentro...
Meninas, assim eu vou pensar que o mundo não tem mesmo jeito. :)
Thiago Carneiro Ximenes disse…
Olha, eu tenho 15 anos e gostei de mais da sua crônica, e hoje eu levei la pro me colégio pra apresentar ela, fui apaudido de pé!
Parabéns!!
Abraços.
Beleza, Thiago! Fiquei aqui imaginando o som dos aplausos. :) Chama a galera e os professores pra virem conhecer o Crônica do Dia. Tem uma variedade de textos bem legal por aqui. Abraço,

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …