domingo, 9 de agosto de 2009

AMOR PLATÔNICO >> Eduardo Loureiro Jr.

Daniel Diaz - outrosdiaz.blogspot.comExiste um lugar onde tudo ainda é possível...

Quando eu tinha dez anos, era apaixonado por uma garota alguns anos mais velha. Na época, a diferença de idade — associada à minha timidez — fez com que o amor fosse completamente platônico. Com o passar do tempo, melhorei da timidez e a diferença de idade foi perdendo importância, mas, por um motivo ou por outro, a paixão continuou platônica por um bom tempo e, depois, se dissolveu entre tantos amores de parte a parte. Mas surpreendentemente, e de uma hora para outra, as coisas mudaram...

Ontem, trinta anos após o início da paixão, justamente na semana de meu aniversário de 40 anos, eu a reencontrei. Eu tinha ido a uma exposição de desenhos do ilustrador de meu primeiro livro para crianças. Uma exposição magnífica que, além da qualidade dos desenhos, tinha uma atmosfera mágica. O curador havia conseguido organizar não apenas o espaço, mas também o tempo. Em alguns momentos, cheguei mesmo a ter a sensação de que não estava no presente, ou de que o presente em que eu estava não era o mesmo em que eu estivera instantes antes. Sou capaz de jurar que voltei no tempo, e me percebi sentado novamente na sala de espera do prédio de minha primeira editora, evitando demonstrar que eu estava muito feliz por ter meu primeiro livro publicado.

Foi na saída da exposição que a encontrei. A antiga garota dos meus sonhos — que eu também já havia visto moça e jovem — agora era uma mulher madura e não lembro de tê-la visto tão linda antes.

Talvez ainda contagiado pelo clima transtemporal da exposição, senti-me novamente com 10 anos, completamente apaixonado, embora mantivesse a consciência de que não éramos mais crianças. Quando a vi, cheguei a lembrar de um pensamento insistente que eu tinha há alguns anos, quando era casado com uma mulher com a qual pensava que passaria toda a minha vida. Mesmo bem casado — e contente —, de vez em quando eu pensava: "Jamais serei realmente feliz se não namorar fulana pelo menos uma noite". Uso o verbo namorar, aqui, não como eufemismo para o verbo transar ou para a expressão fazer amor. Eu desejava mesmo ser seu namorado, andar de mãos dadas, tomar sorvete, puxar-lhe pela cintura, declarar-me, beijar-lhe e, claro, fazer amor. Passou tanto tempo que até esse pensamento recorrente se foi, mesmo o casamento — que era pra ser eterno — tendo fim. E eu namorei uma série de outras mulheres, esquecido dela.

Até que a vi sentada naquele sofá de couro azul à saída da exposição. O sofá era tão belamente azul que parecia pintado por meu ilustrador, e fazia tudo em volta parecer preto e branco. Ou quase tudo. Os olhos dela, castanhos, também tinham o mesmo brilho que empalidecia todas as demais cores.

Quando ela me viu, falou tão baixinho que eu interpretei como um convite para me aproximar. Sentei na pontinha do sofá, enquanto ela deslizou no couro, apoiando a cabeça no encosto. Com uma voz quase inaudível, mas que, paradoxalmente, abafava todos os ruídos do saguão, ela começou a se declarar para mim. Eu, completamente surpreso, escutei meu grande amor platônico, a mulher dos meus sonhos, dizer que há muitos anos era apaixonada por mim, que lamentava nunca termos ficado juntos. E, incerta sobre se eu estava ou não me relacionando com alguém, ela me pediu — num tom de súplica — que, da próxima vez que um relacionamento meu terminasse, eu a procurasse, que eu desse uma chance para nós dois.

Não acreditei. Era bom demais para ser verdade. Pedi que ela se endireitasse no sofá, que olhasse fixamente em meus olhos e me explicasse que brincadeira era aquela. Ela se pôs ereta e repetiu tudo, não no mesmo tom de súplica, mas quase como quem exige um direito. Eu já não tinha dúvidas. Acreditava. Mesmo assim, dividi com ela um longo silêncio, como se — apenas olhando um no olho do outro — repassássemos toda a nossa vida, todo o nosso desejo calado um pelo outro durante todos esses anos.

Era a hora perfeita para o beijo. Fechei meus olhos — e ainda pude vê-la também fechando os seus. Inclinei levemente meu rosto e fui em sua direção.

Mas seus lábios pareciam não chegar nunca, nunca... e voltei a abrir os olhos.

Não havia desenhos nem sofá — nem mesmo ela. Meus olhos piscaram até admitir que eu estava em meu próprio quarto, olhando para o teto. Fechei os olhos com força, como se apertasse um botão emperrado de uma máquina do tempo, como se ainda fosse possível viajar conscientemente para um lugar onde tudo é possível — o mundo dos sonhos.

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10 comentários:

Amor amor disse...

Fato é que vc não se esqueceu dela. Agora deixa eu te perguntar: a parte da exposição foi verdade, e só o resto sonho, ou foi tudo sonho mesmo?

Beijinhos doces cristalizados!!! ;o)

Marisa Nascimento disse...

Ai, Eduardo...Você escreve de forma tão eclética sobre o amor! Já te li tantas vezes e sempre o amor, em seus textos, é surpreendente como tal o é de fato.
Agora vem cá...Você começou a aniversariar em agosto ou o texto que foi feito no passado? :)

Juliêta Barbosa disse...

Eduardo,

Quando li o texto ensaiei várias respostas, mas a emoção me pegou de jeito. Esse lugar e essa história, também são meus. Como você, tento manter os olhos fechados, mas a realidade me puxa de volta... E nessa espera já se vão 37 anos, e um amor que não se cansa de sonhar...
Por tudo que já li aqui e, especialmente, por esse texto, eu lhe dou uma constelação de estrelas e um certificado de brilho eterno. Parabéns!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Amor amor... O que é sonho? O que não é sonho? Mistérios pra você desvendar. :)

Marisa, minha idade e meu aniversário continuam os mesmos. O texto é que foi escrito no futuro para embaraçar os fios de cabelo das cabeças dos leitores. :)

Juliêta, grato por deixar minha noite mais clara com tanto brilho e estrelas. Mantenha os olhos abertamente fechados. ;)

Marisa Nascimento disse...

Ih, Eduardo! Ponto para você. Estava atenta à data do aniversário, mas a idade passou despercebida. :)
Agora licença que vou desembaraçar os cabelos. :)

Carla Dias disse...

Ah, os amores platônicos e a mania danada de serem sonhos.
Às vezes os sonhamos exposta à total realidade e, outras vezes, o sonho é tudo que resta dessa cumplicidade do amor que não se toca, não se bebe, não se come... Apenas se sente e ponto.

Anônimo disse...

Eita! voltei a te ler e vejo que você voltou com tudo... que texto lindo! mas já decidi que não vou me apaixonar por você, só vou te ler de vez em quando, meu platônico amor!!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Carla, lá vem você com essa mania maravilhosa de continuar minhas crônicas, preencher os espaços vazios, com as palavras mais certas e que eu mesmo fui incapaz de escrever. :)

Anônima relutantemente apaixonada, você é que voltou com tudo. :) Volte sempre, e com tudo.

monica disse...

Eduardo,
Por falar em amor, acabo de à primeira vista esta apaixonada pelas suas crônicas!!
Parabéns por tão bem expressar o amor em palavras!!!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, monica. O amor da escrita só se completa no amor da leitura. :)