sábado, 29 de agosto de 2009

ATORES [Sandra Paes]

— Quem vem aí?

Abertura da peça Hamlet. A pergunta inicial já me remeteu a uma resposta além do texto. Quem representa quem?

Na vida, fingimos que somos apresentados. Desfilam uma série de atributos para nos emoldurar. Descobri recentemente que sempre ponho uma moldura mais valiosa em torno da pintura. Valorizo por demais, assim, cada apresentação e, talvez, por isso mesmo, fique à espera, como um leigo, sentado no teatro da vida, do descortinar de personagens através de textos e cenários marcados.

Shakespeare atravessou os séculos. Ainda hoje, os ditos atores profissionais tremem diante da possibilidade de encarnar um de seus personagens.

E de novo: — Quem vem aí?

Afinal, a frase, em si mesma, é magistral. É sempre assim a cada batida na porta, a cada toque de telefone. A cada virada de pescoço num ambiente qualquer.

Não sei quando e por que ficamos desavisados — estado esse que parece ser o melhor para os enredos começarem, atando ou desatando nós.

Nos dramas de todos os dias, Hamlet começa a toda hora a cada istmo de silêncio. A entrada de alguém nos põe em cena. O que representamos ou pensamos que apresentamos não deixa de ser um enredo. E disso fez-se o teatro, dos gregos aos suntuosos palácios ou salas de governo com seus cargos, todos preenchidos por atores de primeira grandeza que fingem nos representar.

Esses atores, sempre muito bem pagos, desempenham os mais diversos papéis, de eficiência, de logro, de vilões diversos, de protagonistas do bem comum, de defensores da lei ou promotores de uma nova fala diante de um drama social maior, como uma crise financeira e a ameaça coletiva de perda de poder de consumo.

Ser ou não ser não é mais uma questão. Canastrar ou não passou a ser o mote presente no palco da vida. E toda a platéia a pagar ingressos caros para ver de perto quem empresta seu ser a representar melhor uma figura ou um figurante.

A arte de representar ganhou palcos mundo afora. Multiplicam-se os textos, as falas marcadas, compostas por redatores mis em cenários preconcebidos, caríssimos, só pra manter o faz-de-conta de que está tudo bem e o espetáculo continua.

E nós ainda assistimos a adolescentes — esses seres com caras de quem procuram a si mesmos — fanaticamente se rasgando por esse ou aquele ator ou artista que os figura atrás de sons e efeitos especiais. Vale tudo e de tudo na arte de iludir a vista e enriquecer a percepção. Vale — e vale muito — pagar a pule de um desses burros de carga que foi agraciado com o título de ator reconhecido. Que saga!

Toc, toc! — Quem vem lá?

Alguém sabe? No drama real, não esse escrito por Shakespeare, ainda procuram-se respostas. E nessa busca nada oracular, nem ousamos admitir que estamos perdidos, entre títulos de nobreza, pobreza, ativos ou títulos podres.

A multiplicação da diversidade na arte de diversar, e divertir, ganha contornos milionários e miseráveis. E em tudo isso, a arte e a realidade cruzam suas pernas e nos confundem em sua cópula nem sempre orgástica, nem sempre fértil. E ainda dizem que o espetáculo não pode parar.

Eu ando cansada de tanta cena, tantas caras e bocas, e não consigo ver o texto real, a fala nua, a face crua, sem a câmara (de preferência), sem esse clique no olhar que revela que sabe estar sendo visto e julgado por sua performance.

Ah, pelo menos nos palcos as cenas são dirigidas com nomes impressos em programas, os personagens são revelados por pessoas cujos nomes são expostos em algum cartaz. Na vida, esse enorme palco diverso, vou me confundindo a cada dia, a cada cena, a cada show, e já nem sei se gosto do que vejo, do que participo. Quem me dera que as cortinas realmente fechassem!

Afinal, quando é que a gente se livra da existência do personagem que fazemos desde o dia em que nos deram um nome, uma filiação, um local de nascimento e uma carga de valores como cartas a serem jogadas em cenários que nem sempre conhecemos muito bem a locação?

Não sei quem é meu diretor, nem sei ao certo se sou autora de meu próprio texto. Se escolho nomear Deus como o pai de todas as obras, tenho que lhe dar crédito pelas óperas diversas com tudo que o homem como coadjuvante vem performando.

De cara por espelho, nesse instante, de rosto pálido e com pouca luz, não me reconheço — nem me sei! De tanto atuar para ter um lugar no palco da vida, seja lá o que isso significa, começo a perceber que não preciso ser atriz, nem meretriz — uma mera atriz. Mas sinto a vida me cobrando a atuação e a dor de saber que gostam quando represento o papel que me atribuíram, quando eu apenas quero fechar as cortinas — e pra sempre...



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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sandra, sua crônica fez-me lembrar uns versos do Pessoa: "Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. / Quando quis tirar a máscara, / Estava pegada à cara."

sandra disse...

Pois é, Eduardo..
me senti surpresamente acariciada com seu comentario.
Ah, Fernando Pessoa..quem me dera!
Mas agora que vc comentou...
Não sei se a máscara colou ou se questiono por que precisamos tanto do uso delas..Afinal, se tudo requer um papel e um script, será que daria mesmo pra faze-lo sem máscaras?
Sei não...