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FELIZ... POR QUE NÃO? >> Carla Dias >>


Uma pessoa nasce desastrada à beça. Então, não consegue andar pela sala sem tropeçar nos móveis, ou sem perceber, na idade incerta das coisas da vida, que errou a mão ao abrir as cortinas, e o fez justo em dia cinza.

A pessoa nasce de atravessado, por isso parece não caber em lugar nenhum... Nem mesmo detrás dos livros, dentro da tela da televisão, debaixo do edredom, na caixa do correio.

Enquanto caminha pelo calçadão, onde ficam as lojas populares, o sonho se acomoda num futuro distante. Logo adiante, como se não tivesse dado três passos, este mesmo futuro - barba branca, fé desbotada, olhar encalhado – lhe confidencia: aconteci.

A pessoa nasce desembestada, ansiosa de um jeito quase insano, como se cutucasse precipícios, como se de lá, do fim sem fim, pudesse contemplar melhor os fogos de artifício. Como se a realidade tivesse sempre que ser a das distâncias.

Quem nasce e depois renasce, dia após o outro, remoça benquerer?

Essa pessoa acreditava que jamais sentiria a felicidade desacompanhada do medo, por desmerecimento, incapacidade de trançar as finas e tempestuosas veias dos acontecimentos, criando um retalho de beleza. Pelo receio de se deixar levar, feito criança, que acredita que todos os dias serão igualmente seguros. Que todos os dias serão guardados pelos cuidados dos seus pais que a levantarão do chão a cada tombo, sem pestanejarem.

E hoje sabe que felicidade é uma dona esperta, que só pega pela mão quem a deseja de fato, e nunca fica para sempre, mas só passa de vez em quando, como a tia que mora fora da cidade e nos traz doces quando nos visita, e também roupas diferentes, livros de histórias divertidíssimas. E somente a espera pela volta dela já inspiradora de alegrias, elas que são os cachos desses cabelos esvoaçados da felicidade.

Essa pessoa aqui está feliz de um jeito diferente. Não é mais a tia quem espero, não mais as tardes de sábado com os melhores filmes na televisão, para ajudar o tempo passar com encanto. Hoje me encanto pela capacidade de um ser humano acalentar a alma do outro. E nem precisa muito... Nesse momento em que tudo parece complicado só para facilitar a vida da gente, me pego acreditando mais e mais na humanidade. Ver o sorriso das pessoas me deixa sorrindo... Vê-las - queridas que são - compartilhando vitórias, me faz sentir tão vitoriosa quanto. Se elas separam um tanto do tempo delas para enfeitar o meu; se mudam de geografia para participar da minha conquista, fazer o quê? É só deixar a Dona Felicidade entrar, gargalhando, completamente despudorada e sem medo de entristecer.

Imagem: Jander Minesso >> www.flickr.com/photos/tantofaz

www.carladias.com
www.osestranhos.com
talhe.blogspot.com



Comentários

Aha, Carla... agora sei como você transforma fatos em textos. :) Linda crônica!
Carla Dias disse…
Eduardo,

Viu? No fundo é mais simples do que parece. E sempre depende do que é possível apreciar.

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