quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Vou deixar a rua me levar >> Kika Coutinho

A história é verídica. Eu tinha acabado de criar o meu primeiro blog, que se chamava Estações ou algo assim. Do alto dos meus 20 anos, escrevia sem parar e, para decorar o blog, escolhi uma foto linda que achei na net. Eram umas árvores de outono, com folhas amarelas no chão. Enfim, uma belíssima paisagem.

Lá pelas tantas, recebo um e-mail em inglês de uma senhora que se dizia a fotógrafa da imagem que eu usava no blog e, como eu o fazia sem a permissão dela, deveria depositar na conta XYZ uma quantia de X dólares. Eu tomei um susto, mas, como mal tinha real, ri de pensar que ela imaginava que eu teria dólares.

Respondi me desculpando e explicando que não poderia pagar-lhe, mas tiraria a imagem, já que ela não queria que eu a usasse. Não demorou muito para que a mulher me escrevesse novamente, propondo um acordo. Ela pesquisou meu nome na internet e, achando que só existia uma Ana Carolina no Brasil, concluiu que eu era uma cantora famosa e que tocava guitarra em muitos shows pelo meu país. Dessa forma, ela gostaria de receber um CD meu, porque também tinha ouvido falar muito bem da música brasileira e o meu CD, portanto, poderia ser o pagamento pela foto que eu usava. Dessa vez, eu ri muito com o e-mail. Eu, que mal sei segurar um violão, não tinha nem reais nem dólares, estava sendo confundida com a Ana Carolina.

Não titubeei. Juntei um pouco do que eu tinha, fui a uma loja de CDs e comprei o último da cantora. Peguei o endereço da minha fã americana no e-mail e fui ao correio. Lá chegando, ainda fiquei alguns minutos no balcão, decidindo o que escreveria. “With love, Ana”, eu ensaiei em um papel de rascunho como seria a minha assinatura de famosa. Já pensou se ela quisesse um show meu? Poderia me indicar para o estádio da cidade dela, e eu iria, claro. Chegaria lá arrebentando no “Vou deixar a rua me levar”, um dos hits da cantora. Ups, um dos meus hits. Eu já estava assumindo a personagem, me imaginando no Central Park ao lado da Madonna: “A revelação Brasileira” seria a manchete dos principais jornais, o Zeca Camargo cobrindo tudo.

Acontece que a verdade, como sempre, é bem menos interessante do que a imaginação. Eu não assinei o CD, apenas mandei com um bilhetinho e, em casa, escrevi um longo e-mail explicando a ela o mal entendido.

Passaram-se alguns dias até que viesse a resposta. Ela escreveu, agradecendo a minha honestidade e principalmente o CD, que tinha feito enorme sucesso na casa dela. Enviou, anexo ao e-mail, um link para o catálogo dela de fotos, e pediu que eu usasse quantas quisesse, sempre que precisasse. Eu obedeci, mantive a foto de outono no meu blog, mandei fotos minhas, recebi outras tantas da família dela, e ficamos amigas, enfim.

Aquela senhora talentosa, que parecia ser uma mulher briguenta e rabugenta, tinha um marido de anos, filhos jovens e uma conversa muito boa.

Eu desisti de cantar no Central Park, certamente não conhecerei Madonna, mas essa história tola, tonta, me faz pensar por que destinos que poderiam dar tão errado, atitudes que poderiam gerar brigas e desentendimentos, tantas vezes tomam a contramão das coisas e, simplesmente, terminam bem.

É comum nos perguntarmos o contrário, buscarmos respostas por aquilo que deu errado, mas, de repente, aquela jovem fotógrafa me fez questionar aquilo que sempre esquecemos de pensar: “Por que o bem, afinal, também nos acontece?”

Partilhar

4 comentários:

InsanoChronicles disse...

Hahahahahah

Sério, essa história é a mais mirabolante que eu já vi! Como que a mulher foi achar a dita imagem no teu blog... e de onde você tirou essa dita imagem!

Muito louco tudo isso.

Insano Chronicles

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, nesse caso a resposta à pergunta final é simples: VERDADE. :) Agora... essa americana é muito desinformada sobre a arte brasileira: confundir você com a Ana Carolina?! Que absurdo! Antes fosse confundir a Ana Carolina com você. :)

Ana Lucia disse...

hehehe! adorei o rumo dessa história diferentona!! Quem imaginaria um final tão amistoso?!

Anônimo disse...

Kika, essa história é hilária, e a crônica, incrivelmente bem escrita. Já li várias vezes.

Parabéns!!

Felipe Peixoto