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OS ÚLTIMOS INSTANTES DE TIM BUCKLEY >> Leonardo Marona


É com extrema dificuldade que acendo o cigarro. Não sei ainda o que está me matando. Penso nos cabelos loiros de meu filho, sei que também ele não escapará, terminará com as calças encharcadas e o estômago inchado de peixes. Minha mulher, ela nunca me entendeu, e apenas isso facilitou o nosso amor. De outra forma não haveria amor, esse élan, não haveria afinal este cigarro na boca. Só os imbecis fumam sem motivo. Adoraria ser um imbecil. Palavras tão gastas quanto a lâmina que decepou Garcia Lorca. Imagino as mortes sempre a facadas.

O frio que faz, sei que não vem de fora. Apenas sei que chove, foram muitas gotas, sinto as gotas escorrerem pelos meus cabelos. Tão bonitos eram os meus cabelos. Fartos e volumosos. “Você parece o Tim Buckley”, ela dizia. Onde estará ela? Tanto tempo não nos vemos. Ou será que foi ontem? Repentinamente me vem a imagem de Dostoievski se agachando para apanhar a pena, rumo à última hemorragia. Dostoievski tinha as pernas curtas e a testa larga e andava sem mexer os braços ou dobrar os joelhos, como se ainda estivesse com as correntes em volta do tornozelo na Sibéria. Imagino como seria Dostoievski sem camisa, os ossos do tórax protuberantes, as costas curvadas em eterno suplício epilético.

Tento com toda a força – que de todo modo míngua – lembrar a besteira que fiz, a música que não completei, estrofe mal lavada. Não queria cantar mais, talvez seja isso. Morre-se quando se deixa de cantar, e eu não queria cantar mais.

Mas não estou morrendo, não é possível. Apesar da respiração dificultosa. No mais, sinto-me tão bem. Tento alcançar a infância, milenar tradição dos moribundos. Lembro da época em que brigávamos demais. Os motivos se despedaçaram, o cancro permanece. Ficava tão deprimido que lia continuamente Carta ao Pai, do Kafka, e dizia que ela era o motivo de toda desavença. Precisamos todos de um motivo, uma carta que seja, que nos cuspa à face. Acredito que as pessoas enlouqueçam por terem muitas opções, inclusive a Carta ao Pai, do Kafka, como concreto para a desavença.

Engraçado ter alcançado o papel. Parece algo pressuposto, que se tem que fazer. A embriaguez me impede de pensar direito, e nem bem tenho muito o que dizer, mas sinto-me levado a dizer qualquer coisa – talvez que a embriaguez seja apenas um assumir sem ironia.

Se o cérebro funciona à toda, o corpo hesita. Veste a roupa, meu amigo, veste a roupa e sai. As pernas usam patins e não escolhem a direção. Palavras nunca foram o suficiente e aqui estou, sem palavras, explicando coisas que se contradizem.

Há dias em que o sol está tão forte e a luz é tão bonita, que não resta mais nada para nós. É horrível, ele revela sem rodeios a desgraça da contradição humana, o mito de Ícaro talvez. Queremos a luz, queremos ser luz, ou ao menos olhar para ela, mas quanto mais perto dela estamos, mas inadequados nos sentimos. Como alguém que, mesmo não sendo muito feio, perto de alguém lindo, torna-se horrível.

Talvez eu seja mesmo Tim Buckley, já que tenho marcas azuladas nos meus braços e pernas. De fato, sou Tim Buckley diante das pedras que se dissolvem em mágoas e blues com gemidos falhos. Há um homem na minha frente. Parece conhecido, parece miragem. Ele se afasta de repente, se afasta e esconde alguma coisa. Talvez o vício nos transforme em alguém que se parece com alguém que vagamente conhecemos, e somos nós. Talvez a morte, essa coisa doce.

Sinto vontade de ir atrás do homem que há pouco estava na minha frente, dizer a ele que não terá tudo sozinho, que preciso de mais, um pouco mais para ser menos vagamente o que já não reconheço. Mas ainda está nítido na memória: “Você se parece tanto com Tim Buckley”, me disse ela, uma vez. A memória de repente é isso. Lembrar de quando éramos parecidos com o que já não somos.

Maldito sol, melodia que estoura os tímpanos, que nos arrasta na direção do tempo. Uma queda no tapete e é tudo. A última visão da cópula entre pássaros. Coçar a cabeça, lembrar o antigo gesto, sonho de mulheres e homens duvidosos. Somos as cinzas de uma nova era. Coçar a cabeça e, de repente, cair. Cair irremediavelmente, atingir por fim o método. Beijar o sol com escorbuto. Dizer te amo, deixar. Rimbaud.

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