sexta-feira, 14 de agosto de 2009

OS ALIADOS DO COSME VELHO >> Leonardo Marona

E descendo o Cosme Velho, rumo à História forjada ia você, poeta emotivo e irônico cheio de espinhas e com intensas, delicadas perturbações, de alguma forma cantarolando sua canção exclusiva em na sua própria cabeça, num ritmo que tornasse possível prosseguir andando, assobiando para os pássaros, enquanto tocava o sino, o sino das seis da tarde e as senhoras brotavam da Igreja São Judas Tadeu, com suas cruzes e olhares perversos para pequenas delicadezas, e você, mago prodígio, assustado com a vida madura cuja boca abria e o hálito era terrível, você vinha vindo descendo a rua, pensando em Machado de Assis, O Óbvio, pensando em como odiava Olavo Bilac.

– Um novo emprego, pois muito bem. Um novo emprego não deve ser letal...

Inadequadas lembranças de quando ouviu certa melodia, certo murmúrio ao pé do ouvido... Numa boate talvez, quem sabe...

– Aí, gordinho, larga o bigode! Perdeu!

Larga o bigode? Primeira imagem: uma clavícula muito magra, tensa, borrão expressionista no olho da noite que se anunciava. Não mais de quinze anos, altíssimo, subnutrido. Não sabia se eram as mãos grandes, marcadas por veias famintas e muito grossas, roxas de apanharem e baterem, não sabia se era aquilo ou talvez o olhar que, assustado, se torna ameaçador, causava excitação, como se mais alguém houvesse descoberto o seu segredo mais íntimo, conservado em anestesia nas rodas sociais e empregos temporários, na vida temporária. Talvez o pânico misturado à hesitação o tivesse feito parecer ridículo, como o homem de Dostoievski, com as pernas curtas demais para o tronco, os joelhos que não conseguiam se dobrar porque ainda sentiam o efeito das correntes de ferro siberianas. Ainda mais naquela distância de filme de caubói. Olavo Bilac versus Harold Pinter. Olavo Bilac, eu te odeio.

– Seu filho da puta – disse o pivete.

– Não tenho nada.

– O celular.

– É muito velho.

– Dá, seu merda!

– Tudo bem.

Inevitável, sentiu-se frustrado. Do outro lado da rua algumas pessoas mordiam com curiosidade as orelhas umas das outras. Nesse momento nosso herói pensou numa vaga conversa que havia tido, como tantas outras vezes, bebendo e contando moedas, com uma amiga que fazia ciências políticas, uma das muitas. Algo sobre a impossibilidade da justiça entre os homens. Sobre a guerra como prova de que estamos vivos.

O garoto subnutrido, no entanto, não acreditou imediatamente. Ficou parado e sem forças diante da inesperada letargia absoluta. “E que bondade, meu Deus, e que bondade?”, pensava consigo o jovem mais promissor de sua década, transtornado repentinamente com um problema absolutamente secular, preso a uma arapuca mundana, precisando criar asas, mas onde estavam as asas? Amputadas. Anoitecia vergonhosamente.

– Passa, senão te furo – disse o pivete.

– Mas você já pegou.

Rato em panela quente, saiu correndo ladeira abaixo, era inverno, seis da tarde, a luz do céu como um grafite, havia porteiros e pessoas com sardas, pedintes aos montes nas calçadas discutindo violentamente, crianças saindo dos colégios, estrangeiros aglomerados na estação do bondinho.

Um porteiro se aproximou. Finalmente, um voto de caridade, enquanto o poeta permanecia pasmo, bestificado: “Não era mais do que eu garoto, um subnutrido”. Ainda bem, alguém lhe ofereceria um pouco de alma, um antebraço à causa patética, que é bastante a causa de cada um de nós.

– Seu viadinho! – gritou o porteiro, velho com pêlos nos ouvidos, fã de Erasmo Carlos.

– Mas, meu senhor, se eu acabei de ser assaltado!

– Imbecil, viadinho, maconheiro! Como deixou um pivete... – aproximava-se o velho, justiceiro dos traumas divinos.

E descendo o Cosme Velho, bruxo sem capa ele apanhou, “viadinho de merda, filho da puta”, e desceu mais um pouco, andando com as mãos, os pés ao vento, talvez um pouco de sangue para algum poema, certamente o frio árido dos olhares aglomerados, inquiridores infinitos que parece que são os próprios olhos da natureza diante da armadilha que a nós foi imposta, de não ter o direito de descer uma ladeira até em casa e ser devidamente assaltado por alguém menor do que você – aliás, era uma bela clavícula aquela, magra, rija – e, mais incrível, ter a certeza de que aqueles, os espancadores, eram seus aliados. Inevitável, lhe veio a imagem de Dostoievski, como um Cristo, invadindo o cassino em Baden-Baden, lançando ao chão as fichas dos atemporais vendilhões do templo. Ele era Dostoievski e no fundo sabia que era parte de uma contradição perene.

Antes de perder os sentidos sobre a calçada preta e branca, pintura de bossa nova, balbuciou: “E são estes os nossos amigos”.


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