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SANGRIA >> Whisner Fraga

A casa é só um esqueleto carunchoso e os vários ramos se intrometem naquela erosão de abandono maciço.

As paredes parecem ressentidas com o descuido, as bocas erodidas e seus dentes afiados de tijolos.

Os homens disputam as vértebras da casa e todos reivindicam uma justiça de três mil faces.

Nada devia ter dono.

Nem o chão, nem a bauxita, nem as esculturas, nem os aviões, nem a vaidade.

Ninguém devia ter dono.

Nem os cachorros, nem os gatos, nem os bois, nem os peixes ornamentais, nem os empregados.

Quantas brigas maturadas naqueles quartos.

Quantos sacrifícios, quantas perdas, quantos gozos naquele cubo?

Já não se atentam.

O que importa é o que pagam por hora e o resto é desperdício e consumo.

Não são ramos, são caules.

Os vãos são alicerces.

Os homens circulam pela calçada e desprezam a beleza arruinada.

Não percebem que a vida rasga os tijolos em busca de ar?

Quem sabe as árvores ofereçam frutos que estanquem a noite.

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