sábado, 29 de setembro de 2007

PRECONCEITO [Maria Rita Lemos]


Albert Einstein estava com 70 anos quando disse uma de suas frases mais famosas: “Triste época essa nossa, em que é mais fácil desintegrar o átomo que erradicar preconceitos”... Isso foi em 1949, e o grande físico era já um ancião, tendo falecido seis anos depois.

Ilustro essa frase do maior físico e cientista, a meu ver, que o mundo conheceu, com uma experiência feita na Universidade de Princeton, Nova Jersey, Estados Unidos. Um grupo de cientistas dessa Universidade colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um dos macacos, famintos, subia a escada para apanhar as frutas, os cientistas lançavam jatos de água fria sobre os que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. Passado mais tempo ainda, nenhum macaco subia a escada, por maior que fosse a tentação das bananas.

Num segundo momento, então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos por outro, que ainda não havia participado da experiência. Obviamente, a primeira coisa que ele fez foi tentar subir a escada para chegar às bananas, sendo rapidamente retirado e surrado pelos demais. Algumas pancadas depois, o novo membro do grupo passou a não mais subir a escada também. Outro membro foi substituído, e a experiência se repetiu, até que os cinco macacos iniciais foram retirados e trocados por novatos. A situação, então, era a seguinte: havia um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado o jato de água fria, continuava batendo naquele que tentasse chegar às bananas. Talvez, se fosse possível obter alguma resposta verbal deles, no sentido de saber por que batiam em quem tentava subir a escada, a resposta seria: “Não sei, mas as coisas sempre foram assim por aqui....”

Essa experiência verídica, levada a efeito nos anos sessenta, algum tempo depois de Einstein ter dito sua frase exemplar, mostra o mecanismo formador dos preconceitos. Que vale para macacos como também para seres humanos.

Na própria origem da palavra “preconceito” é possível encontrar seu significado: “pré” é o prefixo de “antes de alguma coisa”, e “conceito” é a idéia que se faz, também, de alguma coisa, pessoa ou fato. Em outras palavras, o juízo que fazemos antes de conhecer mais profundamente as características de uma situação ou pessoa.

O preconceito é natural, e existe em todos os grupos sociais. Ele aparece por que, quando entramos em contato com situações ou pessoas estranhas ou desconhecidas para nós, tiramos de nossa “gaveta interior” (os jatos de água fria dos macacos...), valores, e interesses que, muitas vezes, não nos deixam ver realmente o que é isso, que situação ou pessoa nova é essa. Nossas normas e valores culturais estão tão arraigados em nós que nem desconfiamos que possam existir outras formas de viver, amar e ser, que poderíamos talvez usar alternativamente para (re) conhecer pessoas e situações. Não conhecendo outras ferramentas que não as que usamos a vida toda como valores, o preconceito pode assumir características de rejeição, negação ou até mesmo violência, na medida em que pessoas que sejam diferentes ou vivam de outras formas, talvez nem tão diferentes assim de nossos padrões, são vistas como ameaçadoras da ordem como vemos as coisas.

Para desfazer preconceitos, segundo Einstein mais difícil que desintegrar átomos, há que se fortalecer a idéia de que as pessoas são diferentes, embora haja tantas coisas comuns na diversidade. Há outras formas de viver e ver o mundo, diferentes daquelas que a maioria adota, e nem por isso essas outras formas são “erradas” ou “imorais”.

Num segundo passo, será necessário entender que os preconceitos são baseados em interesses das classes privilegiadas, quer do ponto de vista social, político ou econômico, por isso há que se fazer uma releitura desses interesses, para que não sejamos como os macacos, que nem mesmo sabem por que estão batendo. Mandaram bater, e pronto.

Teoricamente, quase ninguém assume que tem preconceitos, sejam eles de raça, religião, posição social, orientação sexual e outros mais. Pelo menos até que não atinjam ninguém de suas famílias. É preciso, porém, urgentemente, transformar esses discursos "anti-preconceito" em ações reais e práticas, respeitando as individualidades pessoais.

Espero com muita fé pelo dia que em que nossos filhos, filhas, netos e netas possam ter acesso à diversidade na escola, na rua e na vida, e saibam olhar as outras pessoas além das aparências, como Deus mesmo as olha, de forma a viver bem com todos e todas. Que possam amar sem barreiras, porque foi essa a maior, a síntese de todas as lições que os Mestres de todas as religiões e filosofias nos ensinaram.

Palavra de Mulher
Imagem: Universidade IMES

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Um comentário:

Flávio Rino disse...

Gostei muito de ler este artigo e fiquei muito interessado na experiência (com os macacos) que referiu. Gostaria de saber mais sobre esta. Ser-lhe-ia possível, por gentileza, revelar-me como soube de tal experiência? Se sim, ficar-lhe-ia muito grato se me enviasse uma referência ou algo que me permitisse investigar para o email que deixo:

aquelequetodostememos@yahoo.com