terça-feira, 25 de setembro de 2007

sorriso e cidadania >> Claudia Letti

Fiquei espantada, dias desses, ao constatar que muita gente inteligente e articulada não sabe realmente o que quer dizer "cidadania". Até eu fiquei confusa com tamanha confusão alheia e fui atrás do Aurélio pra esclarecer já que pra reclamar ninguém parece precisar esclarecer coisa alguma, visto que é facil e geralmente custa nada.

cidadania [De cidadão + -ia1, seg. o padrão erudito.]
Substantivo feminino.
1.Qualidade ou estado de cidadão:

cidadão[De cidade + -ão2.]
Substantivo masculino.
1.Indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este.
2.Habitante da cidade.
3.Pop. Indivíduo, homem, sujeito:
Esteve aí um cidadão procurando por você. [Fem.: cidadã e cidadoa; pl.: cidadãos.]

É enfadonho ler o que nos diz o dicionário, bem sei, até porque palavras bem colocadas, muitas vezes, não querem dizer muita coisa. Palavras se reduzem a ilustrações quando as atitudes é que falam.

Ser um cidadão é desempenhar seus deveres para o com o Estado, certo? Sim, eu sei que estamos cheios dos direitos a reivindicar e, provavelmente, cobertos de razão quanto ao descaso do governo, dos políticos, do síndico, do pai, da mãe, da economia e dos muitos etecéteras que nos azedam o fígado todos os dias. Mas, estava pensando em falar dos deveres. Não é um chamamento para uma passeata pela paz, nem um movimento pela não sonegação de impostos, contra a pirataria do Tropa de Elite ou mesmo um blábláblá sem fim da corrupção que assalta nossa pátria mãe tão distraída. Isso, vamos deixar para quem acredita em grandes trajetos sem dar um passo. Ideologia, todo mundo quer uma pra viver, ô.

Falo de coisas mais simples, pequenas, quase bobocas, que passam desapercebidas pelos nossos envenenados fígados e pelo alto de nossos olhares de sabe-tudo, não fosse o meu, o seu, o nosso olhar estar literalmente fechado e duramente atacado por um guarda-chuvas indomável na calçada ali em frente. Saber andar empunhando um guarda-chuvas, preocupando em não furar o olho alheio, é um passinho miúdo de cidadania. Ninguém quer que você se molhe, claro, mas não é preciso vazar o olho de ninguém para manter-se a seco.

Caminhar com sua família inteira -- inclua o cachorro, óbvio, nesse quadro afetivo e corriqueiro -- é maravilhoso para você, para mim e todos sabemos disso. Mas, andar a passos lentos com todos enganchados na horizontal, obstrui um pouco o trânsito de pedestres e pode acreditar: ninguém precisa ser atropelado por andar no meio da rua, na contra mão do trânsito, para que você tenha seu momento familiar. Não se espante, esse é um pequeno gesto de cidadania, quase nunca citado mas muito desconfortável quando acomete outros cidadãos que estão na mesma calçada que você.

Bater papo é uma delícia, quem não concorda? Mas, dá pra bater papo longe das portas automáticas do shopping ou do hotel onde está hospedado seu amigo? Porque os sensores das portas sinalizam sua presença, fazendo com que fiquem abertas gastando uma energia que o planeta tem tirado sabe lá Deus de onde, sem saber que você está apenas marcando um encontro pra ir naquela passeata contra o aquecimento global.

As mães e suas crianças tem prioridade em calçadas e locais públicos, todos sabemos disso. Mas, é realmente necessário deixar o carrinho com o bebê de um lado e o carrinho com suas compras de outro, enquanto os demais consumidores não tem vez no estreito corredor do supermercado? Na sua hora e vez no caixa do banco, você não pode ter sua conta a ser paga em mãos, ao invés de deixar a fila toda esperando enquanto você procura que procura a fatura de luz, numa bolsa que contém 3452789 papéis e outros objetos não identificados? Cidadania! Desempenhar seus deveres para com o Estado e o Estado é um monte de "outros". Simples, indolor e eficiente quando se trata de vida em grupo.

Respeitar os sinais de trânsito, esteja você de carro ou a pé. Aquele velho discurso de desligar celular no cinema, teatro e outros locais públicos, está valendo, é cidadania sim, infelizmente pra muita gente. Não atirar guimbas de cigarro, papéis e outras coisinhas no chão. Dizer bom dia, por favor e obrigada -- o que deveria ser obrigatório por lei, com multa e tudo mais. Assim como exigir o troco que lhe é devido com educação e tranqüilidade.

Exigir seus direitos não é armar barraco. O barraco já está armado e lhe ofendendo (muito!) quando você se cala e não exige o que é seu direito -- de cidadão -- e de exercer a sua cidadania. Não é necessário gritar ou ser grosseiro para dizer "eu sou cidadão". Basta ser firme. E bem educado, claro. A boa educação, aliás, é uma arma desestabilizadora da lei da vantagem e da malandragem.

E sorrisos. Cidadania sem sorriso e boa educação é hipocrisia. Ah, esses são verdadeiros antídotos contra gente mal educada e sem noção. Sorrisos e educação são verdadeiros aliados no seu, no nosso exercício de cidadania. Exerça a sua.

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5 comentários:

Debora Bottcher disse...

Nossa, guria! Colocaste nesse texto tudo que eu sempre penso sobre as pessoas folgadas. :))) E como tem gente folgada no mundo, não? Isso da fila do banco, as cenas de surpermercados e aqueles que ficam em frente às portas são as que mais me incomodam. Valha-me Deus! Falta mesmo aula de cidadania aos mortais comuns. :)
Beijo enorme, sempre bom te ler.

Ilton disse...

Cidadania, no Brasil de hoje, é uma mera expressão idiomática. Aqueles que mais falam em cidadania e que teriam o dever de implementá-la são os que mais a desrespeitam. Parabéns pela crônica. Um abraço.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Desconfio que as pessoas que cometem esses atos "anticidadãos", na maioria das vezes, nem percebem que estão incomodando. E fiquei me perguntando se eu, um perfeito cidadão nos exemplos de sua crônica, não estou deixando de perceber outros incômodos que estou causando. :)

Ana disse...

Clau,

Esta é uma crônica pra ser usada em sala de aula. Sempre digo que essas coisas são básicas e devem ser ensinadas dentro de casa e na escola. Como o mundo tá o que tá, a gente deduz que o que está faltando é educação pra esse povo, né?

Sua crônica já foi devidamente impressa em 4 vias, pras gurias aqui de casa, e uma enviada por email pra uma professora de Eja que vai deitar e rolar com ela.

beijo grande,

Michelly disse...

EU vou usar essa crônica com meus alunos do Projeto Entre Jovens....com as devidas referências, é claro, parabéns pelo texto...Sucesso!