sábado, 29 de setembro de 2007

O PAI PRÓDIGO [Ana Coutinho]


Certamente você já ouviu falar a respeito. Ou na missa, ou num texto, ou a sua mãe dizia, ou alguém no ônibus, atrás de você, já mencionou a “parábola do filho pródigo”.

Ela é simples. Fala sobre um filho que saiu de casa, gastou todo o dinheiro que o pai havia dado pra ele e, quando estava na miséria, se arrependeu de tudo e voltou pra casa. O pai, ao contrário do esperado, o recebeu de braços abertos. Mandou matar um porco e fez uma festa de boas vindas, porque o filho estava perdido e voltou. No entanto, esse pai tinha outro filho. O outro filho sempre foi trabalhador e nunca saiu do lado do pai e, ao ver a festa que este fez para o irmão desmiolado, se aborreceu, se entristeceu. A essa reação, o pai respondeu: “Alegre-se meu filho. O seu irmão estavava perdido e voltou!”.

É basicamente isso, e é assim que a relação entre pais e filhos foi, por tanto tempo, concebida. Os filhos são uns desmiolados, e os pais possuem um enorme amor incondicional.

Por isso tudo devemos respeito aos nossos pais, devemos honrar pai e mãe, devemos cuidar deles com amor, devoção até. Só que os tempos mudaram. E hoje, além desses pais excelentes que amam os filhos incondicionamente, existem outros. Hoje em dia, não é raro vermos o contrário. O pai que roubou o filho. A mãe que manipula suas crianças pra perturbar o pai. Ou o pai que ignora que tenha filhos, enquanto esses os esperam na janela, dia após dia. Os pais deixaram de ser os santos, talvez não todos, mas pelo menos parte deles. Quem não conhece uma mãe que chantageia seus filhos com sentimentos quase sórdidos? Quem nunca ouviu falar de um pai que extorque o filho? Financeiramente, moralmente, amorosamente. Eu sei, de pelo menos uns 3 casos. E, em todos eles, os filhos gastam horrores com terapia, para que possam sentir raiva de seus pais, para que possam odiá-los até, sem odiar a si mesmo antes, sem maltratar a si mesmo antes, porque essa é a regra: Filho que não apoia o pai está errado, é banido e pronto.

Ah! Quanta injustiça... Quantos traumas não se resolveram porque é proibido contrariar um pai, é crime enfrentar uma mãe, e a sociedade é craque em julgar e punir um adulto que não visite ou não telefone semanalmente pra sua mãe.
Mas e se essa mãe faz mal? E se esse pai arrasa o filho adulto? Como lidar com a culpa, com o fardo de não honrar aquele que, afinal de contas, te colocou no mundo?

Talvez deva haver uma mudança. Talvez devêssemos ser mais realistas e mais justos com as nossas crianças e com os nossos adultos, frutos de preconceitos ou de devaneios de pais, tantas vezes egoístas e mesquinhos. Não há santo aqui. O que existe sim, é uma relação que segue com tropeços, solavancos, tentativas acertadas e frustradas de ambas as partes. E, nesse caminho de tantos mal-entendidos, de tantas palavras mal colocadas, ou de tantas frases que nunca foram ditas e abraços que nunca foram dados, é preciso enxergar com clareza quem somos. O que é possível, o que é impossível.

Que filho eu posso ser, enquanto o meu pai pródigo não volta? Que amor eu posso lhe conceber hoje, sem me mutilar ou sem carregar toneladas de culpa por não exercer o meu amor, como manda o script? Não há só filhos pródigos, não há só pais perfeitos.

Hoje, a imperfeição está em todo o lugar e é preciso tirar a venda do preconceito dos olhos pra podermos enxergar e –principalmente – lidar, não só com o que temos de lindo e nobre, mas com aquilo que temos de egoístas e mesquinhos, e com o legado que deixamos aos nossos filhos, não só nas parábolas, mas na vida real, enquanto eles tentam ser, também com tropeços e solvancos aquilo que - talvez - tentamos ensinar a eles para que fossem.

Doce Rotina
Imagem "Pai e Filho": Mauricio Rett

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4 comentários:

Inês disse...

Ana,

Quero iniciar dizendo que concordo, em linhas gerais, com o que escreveu, mas também devo dizer que me pareceu um pouco equivocada a sua análise quanto a parabóla do Filho pródigo. Não quero discutir aqui o uso que pais e Igreja fazem dela, mas o fato é que a parábola não exalta o que você mencionou em sua crônica: pais amando incondicionalmente os filhos desmiolados. O título filho pródigo, significa filho prodígio. Ninguém chama de prodígio a um desmiolado. O que me parece que essa parábola ensina é a coragem desse filho que ousa pedir sua parte na herança, ousa sair da casa e da proteção do pai e se perde e perde a herança, mas que quando já não lhe resta nada lembra que tem um pai. E Esse filho tem coragem de passar por cima de tudo o que o distancia e retorna para pedir ajuda, afeto, acolhimento, chega desprovido de certezas. É por superar distâncias, preconceitos, sentimento de humilhação, é por conhecer o amor incondicional que esse filho é chamado de pródigo. Essa parábola diz que, às vezes, é preciso perder tudo para ganhar tudo. O filho mais velho que ficou com o Pai e a herança, nunca experimentou a alegria desse amor sem condição, também não experimentou o erro, a humilhação, a dor de perder tudo.Ele nunca desrespeitou o pai, e nem por isso o amava.

Entretando, concordo com você quanto ao fato de pais falharem como modelos de proteção. A coleção Estado de Alerta, Edições SM, trata desses assuntos. Vale a pena dar uma olhadinha.

Abraço,

Inês

Eduardo Loureiro Jr. disse...

"Que filho eu posso ser, enquanto o meu pai pródigo não volta?"

O filho que espera confiante que o pai vai voltar. O filho que cuida de seus outros pais (seus outros mestres e figuras de autoridade). O filho que se prepara para recebê-lo, a qualquer momento, sem mágoas, com generosidade e com alegria. O filho que estará pronto para cantar "eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira, que não pode ser, e que depois de tudo que ele me fez, eu jamais poderia aceitá-lo outra vez. Bem sei que assim procedendo me exponho ao desprezo de todos vocês. Lamento, mas fiquem sabendo que ele voltou e comigo ficou. Ficou pra matar a saudade, a tremenda saudade, que não me deixou, que não me deu sossego um momento sequer desde o dia em que ele me abandonou. Voltou pra impedir que a loucura fizesse de mim um molambo qualquer, voltou dessa vez para sempre, se Deus quiser."

anacarolinascoutinho disse...

Oi Inês,
Sim, vc tem razão. Na frase: "pais amando incondicionalmente os filhos desmiolados" eu quis falar de um padrão de pensamento geral, da sociedade (que claro, é generalista e não esoecífico)e não quis - e nem posso - fazer uma análise mais detalhada do texto bíblico.
Talvez tenha me expressado mal.

Agradeço o seu comentário,
Bjs
Ana

Ev. Fabricio Neres Neres disse...

Concordo, dizer q o pai matou um porco, num contexto judaico aí é de lascar.....