Pular para o conteúdo principal

O CARRO VERMELHO >> Leonardo Marona

Todos pensavam se aquilo poderia ser apenas passageiro. Ninguém andava ou se mexia. Esperávamos alheios, cada um com seu tipo de loucura. As luzes dos carros iluminavam os mendigos, que se retorciam em caretas indesejáveis. Ela esperava o ônibus enrolando os cabelos crespos muito claros. Muito clara ela também, do queixo proeminente.

Vaga ascendência africana, em pecado era polonesa. Nos cabelos dava em nó um coque, os cabelos soltavam-se gentilmente. Melhor: soltavam-se doucement, como se diz em francês. Neste caso é mais apropriado o francês. Então ela repetia o processo.

Eu tomava um suco e pensava sobre o meu futuro imediato escorado no balcão de uma lanchonete barata onde homens obesos discutiam futebol.

Ela esperava o ônibus, olhava para trás, um coque nos cabelos, olhava para os lados, o coque se desmanchava.

De repente se levantou, tênis all-star e calça roxa colada, parou no meio da rua, estabanada, olhou para trás – para mim? – olhou para os lados. Estaria perdida? Seria o destino, mesmo atrasado após tantos equívocos?

Ela parecia perdida, um lado e depois outro, eu estava perdido, ela precisava de ajuda, eu precisava de... Era bela, o destino, serenatas, poemas, quedas d’água...

Cheguei perto: os pés distantes do chão, a calma forjada dos já não mais tão jovens.

- Você precisa de alguma coisa?

Seus olhos brilhavam. Era bela, o destino, um lado e depois outro. Então dobrou a esquina um carro vermelho, abriu-se a porta do carro e aquele era um excelente perfume, que vinha de dentro do carro vermelho. E dentro dele havia também um homem. E dentro do homem um sorriso malicioso. Porque era bela, o destino, e ele também sabia, o homem do carro vermelho, que dobrou a esquina e depois a levou de lá, o queixo proeminente, a culpa polonesa, vagas tribos africanas, o suco no bagaço.


www.omarona.blogspot.com

Comentários

Que lindeza, Léo! Fez-me lembrar das descrições de mulheres que eu e um amigo fazíamos em nossas trocas de cartas. Estou gostando dos textos mais enxutos. :)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …