domingo, 30 de setembro de 2007

MEU TIPO DE MULHER >> Eduardo Loureiro Jr.

Eduardo Loureiro na Ilha do SolDias desses, minha amiga Inês me perguntou qual o meu tipo de mulher. E minha memória me jogou num outro pátio, que originou esse patio.com.br. Eu estava sentado no banco de cimento defronte ao hexágono amarelo, conversando com um amigo tão super-herói que se chamava Zorro. Ele interrompeu o que eu estava dizendo e falou: "Olha, Eduardo, aquela mulher que vem ali é o seu tipo." Olhei na direção em que ele apontou e... não é que era mesmo! Aquela mulher, definitivamente, atraía o meu olhar. Zorro havia acertado. Ele sabia qual o meu tipo de mulher, coisa que eu, tenho que confessar, nunca soube. E dia desses, sem o Zorro por perto, eu não soube o que responder à minha amiga Inês.

Para mim, é estranho que eu tenha um tipo de mulher. Porque mulher é sempre tão cada uma, tão única, tão inconfundível, que me parece um exagero de classificação incluí-la em um tipo. Por outro lado, se o Zorro era capaz de antecipar o meu gosto por determinada mulher, é porque eu tinha — e talvez ainda tenha — um tipo de mulher na cabeça, mesmo que o tipo esteja naquela parte da minha cabeça que se chama de inconsciente. Então resolvi abrir a porta e entrar no quarto escuro dos meus sentipensamentos. E minha maneira de entrar em minhas escuridões e sombras é escrevendo sem saber que idéia, palavra ou parágrafo virá em seguida. Normalmente, faço isso sozinho. Mas desta vez convido o leitor, e principalmente a leitora — será que você é meu tipo? —, para vir junto comigo...

Arne Dedert - corbis.comQuando o assunto é tipos, nada melhor do que a astrologia para nos dar uma idéia das várias formas de ser no mundo. Meu tipo seria de algum signo solar específico? Eu tive maravilhosas paixões — platônicas, é verdade — por mulheres de Peixes. Namorei e pensei em casar com duas mulheres de Libra, para as quais até escrevi uma crônica. Mas tive a paixão mais lindamente correspondida da minha vida com uma aquariana, e a mulher que mais amei era de escorpião. Se não pelo signo, talvez pelo elemento: seria água-ar o meu tipo de mulher? Meus relacionamentos mais recentes não comprovam: nos últimos três anos, desde que me vi sem meu escorpião-gêmeo, têm predominado fogos e terras. A astrologia, pelo menos no que se refere ao signo solar, não é conclusiva em relação ao meu tipo de mulher.

Quem sabe o cinema? Sim, eu tenho minhas poucas e boas atrizes prediletas, não por seu talento de atuação, mas por sua beleza, pelo seu jeito, por sua graça. Será que as atrizes que me fazem assistir a um filme, qualquer filme, mesmo que nem preste, me ajudariam a compor meu tipo de mulher?

Vamos começar por Ava Gardner, que eu só descobri recentemente, mas que é a mais velha de minhas — permita-me chamá-las de minhas — atrizes. Conheci Ava Gardner (que é de Aquário) assistindo a um filme chamado Vênus, Deusa do Amor (One Touch of Venus, 1948).

Nunca vi associação mais perfeita entre uma atriz e uma personagem. Ava era Vênus, Vênus era Ava. E eu era um homem apaixonado. Paixão sem futuro, porque Ava tinha morrido mais de dez anos antes de eu "conhecê-la". E, mesmo que estivesse viva, teria a idade exata de minha avó. Mas eu não podia reclamar da vida: uma de minhas mulheres se parecia tanto com a Ava Gardner quanto é possível uma mulher se parecer com uma deusa.

Isabella Rossellini (que é de Gêmeos), eu conheci num filme chamado Um Toque de Infidelidade (Cousins, 1989). E eu juro pra você que eu casaria com aquela mulher naquele mesmo dia se tivesse apenas a oportunidade de falar com ela e pedi-la em casamento. Quando me disseram que a mãe dela, Ingrid Bergman (aquela de Casablanca), é que era a mulher mais bonita, eu tive que discordar. Isabella tem hoje 57 e, se eu encontrasse com ela no meio da rua, sei não... talvez largasse mão do meu desejo de ter cinco filhos e pedisse ela em casamento.

Um pouco mais nova é a taurina Andie MacDowell: tem 49 aninhos. Talvez eu tenha conhecido a Andie em Sexo, Mentiras e Videoteipe (Sex, Lies and Videotape, 1989), mas devo ter me apaixonado por ela em Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993) ou Quatro casamentos e um funeral (Four Weddings and a Funeral, 1994).

Com a Andie, eu nunca me imaginei tendo uma vida glamourosa. Na minha imaginação, quando vivéssemos juntos, sentaríamos num sofá, abraçados, com roupas velhas, rasgadas até, ouvindo música ou vendo um filme.

Minha mulher cinematográfica mais recente é a Liv Tyler (de Câncer). Tudo bem, ela tem as mãos exageradamente grandes, mas, meu Deus, quer dizer, minha Nossa Senhora!, que linda mulher. Agora ela tem 30 anos, e eu nem sei por que desisti de me aproximar dela. Incrível como só por uma mulher ser famosa e você ser um homem desconhecido, a gente pensa que certos encontros são impossíveis. Caramba! Alguém aí tem o número da Liv Tyler?

Pelas mulheres que apresentei, talvez fosse possível destacar algumas características comuns: pele clara e cabelos escuros. E isso realmente indica uma predileção minha, embora eu goste também de pele bronzeada e sinta um certo arrepio sempre que passo em frente a um quadro que tem na sala da casa dos meus pais. É um quadro pintado por minha tia Lindalva (lindas e alvas poderiam ser o meu tipo?). Foi dado como presente a meu pai e retrata uma ruiva, embora ele houvesse pedido uma loura. Aliás, segundo minha mãe, a primeira paixão da minha vida, quando eu tinha 7 anos, foi por uma loura, que me esnobou e me deixou sem saber o que era ter um cabelo de sol em minhas mãos por anos e anos. Sim, já tive uma namorada loura. É como se o Sol desistisse de sua masculinidade e se transformasse em carne. Se meu tipo de mulher é inconsciente, corre o risco de não ter os cabelos escuros, e sim claro. E pode ser ainda que, no escuro da minha mente, o meu tipo verdadeiro, uma mulher negra, esteja invisível por ausência de contraste.

Também não posso desconsiderar a possibilidade de meu tipo de mulher ser, psicanaliticamente, a minha própria mãe, embora eu só tenha namorado uma sagitariana que, por sinal, nem se parecia com ela. Ou talvez o meu tipo de mulher, e o tipo de mulher de qualquer homem, não seja aquele no qual se encaixaria a sua mãe, mas a própria mulher-mãe, que nos dá o alimento, nos oferece o colo, cuida de nós quando doentes, está ao nosso lado todos os dias e ama nossos filhos. Sexo? Freud explica.

Seria essa, Inês, a minha resposta após entrar nos escuros do meu desejo? Ou meu tipo seria todas elas juntas num só ser como canta Lenine sobre poema de Carlos Rennó?

Ah, Inês, me deixe pensar um pouco mais, viver um pouco mais, beijar um pouco mais. Deixe-me olhar com o olhar distraído para a paisagem. Deixe-me ser um dia surpreendido pela voz interior de um super-herói com um supersentimento, dizendo com supercerteza: "Olha ali, Eduardo, vai lá, se ajoelha, improvisa um poema, se declara, pede em casamento, porque aquela mulher que vem ali É O SEU TIPO, exatinho, tintim por tintim".

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3 comentários:

Inês disse...

Linda! Muito linda sua crônica-resposta... Queria eu saber usar as palavras, assim como fazem os poetas e escritores, para comentá-la...

Confesso que quando comecei a lê-la senti medo de me deparar com seu tipo ideal de mulher e convivi por alguns segundos com o risco desse tipo não ser nadinha parecido comigo. :)

Foi uma delícia ir lendo e descobrindo seu encantameno por todas as mulheres e sua habilidade de nos colocar no seu texto de forma que nos sintamos bonitas, atraentes... o seu tipo de mulher...

Sabe, eu sentia uma certa inveja das "suas mulheres de libra" e pensava: "que mulheres fantásticas fazem um homem escrever algo assim a seu respeito." E desejava ser uma libriana. :)

Hoje me vi ali, descrita entre tantas possibilidades e sem nenhuma possibilidade, mas ali presente simplesmente como mulher.

Grata pelo presente de domingo.

Carla Dias disse...

Meu amigo... Você é um dos poucos homens que conheço que tem o coração tão aberto quando se trata do tipo de mulher que lhe cai bem aos olhos e às emoções.

Adorei a sua crônica e as pinceladas de astrologia e cinema para a profunda análise sobre o tema. Afinal, quando se trata do tipo de pessoa que gostaríamos de ter ao nosso lado, fazemos todas as contas e verificamos todas as possibilidades, mas gostamos mesmo é do susto que a vida nos dá ao nos presentear com a descoberta, sabe? Quando o improvável passa a fazer todo o sentido.

Beijos!

Claudia Letti disse...

Olha... estou assim, embevecida pelo Eduardo que escreveu esta crônica. (Acho) que nunca te vi tão solto e brincalhão numa crônica. E falando sério, o que é melhor.
Adorei. Só não bateu a crônica das suas mulheres de libra porque eu sempre puxo a brasa pra minha sardinha, quem não!?
Felizarda da mulher que fizer seu tipo, naquele átimo de segundo onde o tipo não tem nada a ver com isso.
Felizarda de mim, sua amiga, e da Inês que recebeu uma crônica resposta maravilhosa como essa.
beijo bem grande,