sábado, 1 de setembro de 2007

CINEMA MODERNO [Débora Böttcher]

No ano de 1996, o filme "Íntimo e Pessoal" caiu como uma bomba na minha emoção: ele quebrava a era do 'felizes para sempre'. Eu me lembro de ter ficado sentada diante da tela enorme, imóvel, ouvindo a música triste até acabarem os créditos, e saí dali angustiada e silenciosa - e a amiga que me acompanhava não se mostrou menos melancólica.

De lá pra cá, isso se tornou constante: exceto as comédias românticas (que raramente valem o ingresso), os dramas literalmente se transformaram em reflexos definidos e perfeitos da realidade crua da vida cotidiana: é a arte imitando a vida com uma excelência que impressiona. Não mais amores que dão certo; não mais barreiras de religião ou raça vencidas; não mais curas milagrosas. Os novos scripts seguem o roteiro do sonho quase possível, mas não realizável: ou dão uma definição radical ou nem todas as pendências são solucionadas, deixando aquele sabor de que muito além do "The End" a coisa se estendeu sem resolver-se.

Os filmes de ação também seguem a mesma linha: apesar dos bons enredos atuais, além de velozes demais - "O Ultimato Bourne" é de enlouquecer qualquer um com sua velocidade -, lhes falta um pouco de doçura, alguma coisa que os conecte a um sentimento sublime, muito acima de tiros e explosões.

A era da internet nos propicia ver muitos filmes - muitos dos quais nem chegam aos circuitos de cinema por conta do pouco apelo comercial. Eu tenho visto filmes espanhóis, alemães, poloneses, finlandeses, indianos, franceses, russos, ingleses e também americanos que são verdadeiras pérolas da atualidade.

Mas o que todos eles têm especialmente em comum é o final surpreendentemente chocante. É um susto, pelo menos pra mim, esse confronto com a desilusão, o abandono, a morte dos protagonistas, como se não houvessem mais personagens principais: igualaram-se todos ao nível das possibilidades de desfechos inesperadamente trágicos.

Talvez o cinema esteja, cada vez mais, se descortinando para novos papéis dentro da sociedade - dentre os quais se destaca essa perda total da ingenuidade humana. Quem sabe se os finais felizes não engordam mais às bilheterias. É possível que a sétima arte tenha perdido sua função maior de entreter e divertir: agora, a ordem é nos lançar sempre à luz da verdade - aquela mesma que todos os dias trava uma batalha pessoal conosco.

Eu sempre adorei Cinema. Acho que é uma das expressões mais belas da retratação de cenas e imagens que habitam o campo das sensações. Mas ando ficando um pouco, digamos, aborrecida com esse repetitivo derrame de frustração das telas. Não demora muito e vou ter que me alimentar novamente dos Contos de Fadas - Cinderelas, Príncipes, Fadas e Bruxas, Peter Pan's e Ganchos - para me abastecer a alma de esperanças.

Expressões Letradas

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4 comentários:

Mary Ju disse...

ééé... o cinema também pode ser um abrir de olhos para a realidade da vida.
ou... podemos pensar que pelo menos não é assim conosco. ou se estivermos na pior, pensemos: tenho companhia!
heheh...
adorei seu texto e tbm amo cinema.
abraço

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que bela e importante reflexão, Débora!

Eu gosto da engenhosidade dos filmes complexos e de final imprevisível, mas, no fundinho da alma, gosto mesmo é do final feliz, ou pelo menos da esperança.

Estou feliz por voltar a lê-la e esperançoso de novos bons textos. :)

Carla disse...

Débora...
Também adoro o cinema e confesso que me agrada essa crueza dele. Porém, acho que é preciso um olhar afetuoso para nos resgatar da angústia que estes finais trazem... Quando se trata do cinema e também da vida.
A doçura está lá, como sempre esteve. E os finais felizes não são definidos no The End, não é? Quem já não quis saber o que vem depois?
Gosto de pensar que depois das dores está o bálsamo.
Adorei ler você.
Beijos!

Anna Christina Saeta de Aguiar disse...

Débora
Sabe, acho que eu sou mais dos finais realistas do que dos finais felizes... mesmo que a doçura seja bem-vinda, lembro de inúmeros finais de filmes em que minha sensação era a algo do tipo "se pode dar certo lá, porque não dá certo aqui?"
Na verdade, pode dar certo, mas nem sempre, e nem em qualquer tempo.
Acho que gosto da arte que me mostra isso, mesmo que se perca em doçura...
Beijo
Chris