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PESSOAS >> Carla Dias >>

Desde criança, e que fique registrado que minhas lembranças dessa época são seletivas, uma das coisas que mais me dava prazer era saber sobre as pessoas. Lembro-me de como era observá-las lá na escola, época do primário. Apesar de me sentir extremamente longe delas, aquém de seus universos, ao prestar atenção no que diziam e faziam, percebia as sutilezas que reverberavam seus prazeres e dores, e isso se tornou uma fascinante jornada.

As pessoas mudam, conforme o tempo passa e também elas passam por nós. São poucos os amigos que trago daquela época. Na verdade, até hoje não compreendi como consegui a amizade deles e as amizades que vieram depois, já que observar as pessoas e percebê-las dessa forma tão repleta de lonjuras, também é viver do lado de fora da realidade delas.

Na verdade, com o tempo eu também fui me moldando. O tempo não desperta somente sabedoria, mas também necessidade. E quem não necessita de pessoas a sua volta; quem passa as vinte e quatro horas do dia imerso na solidão pungente, sabe não o quanto há de divindade em conhecer profundamente uma pessoa... E dá trabalho, mas ainda bem que nem todos nós somos preguiçosos, não é mesmo?

E há as peculiaridades... Saber respeitá-las é compreender que cada um é um, por mais que escolham o mesmo tipo de roupas, assistam aos mesmos filmes e adorem aquela mesma cidadezinha que faz o coração da gente desejar uma mudança geográfica. Peculiaridades são fundamentais, pois graças a elas aprendemos a amar o outro de uma forma única.

Falo sobre minha fascinação pelas pessoas ao mesmo tempo em que me afasto do que elas desejam de mim. Uma das minhas peculiaridades é o apreciar a solidão. Não aquela sobre a qual já falei... Aprecio a solidão, mas daquela que oferece a casa vazia na hora da criação. A solidão dos quintais em final de tarde. Dos telhados em dia de chuva. A solidão do adormecer ouvindo folk e acordar dançando samba. A solidão das construções pessoais, as que definem nosso caráter e as prioridades.

Falando em prioridades...

Considero-me uma pessoa de sorte por ter quem me ame a ponto de ser meu amigo. Tenho amigos fantásticos! São pessoas para se admirar, porque entre as peculiaridades delas está a honestidade do sentimento que oferecem. E não sei como caibo na vida delas, já que sou daquelas que não cumprem direitinho o calendário, porque às vezes me afobo, melhor, entro mesmo em pânico, e não consigo estar entre as pessoas, por mais que as admire. Sendo assim, já faltei a casamentos, aniversários, festas, datas importantes para esses meus amigos, e alguns deles compreendem que não se trata do evento ou de um problema pessoal... Outros nem tanto.

Já cheguei a cogitar não ser merecedora do amor que me oferecem, mas foi numa fase de falta de tolerância comigo mesma. Quem não merece o amor? Talvez aquele que não o saiba preservar e, no que me consta, apesar de todas as restrições e pisadas de bola que minhas peculiaridades provocam entre mim e meus amigos, está aí uma coisa da qual sei cuidar: o amar o outro.

Ah, as pessoas...

www.carladias.com

Comentários

Ah, a pessoa que você é... :)
Jander disse…
Acho que a parte do "faltar em casamentos" eu entendi melhor do que o resto...
As pessoas são mesmo fascinantes, Carlota. E você tem, sim, um talento todo especial pra entender as ditas cujas. Linda escrivinhação, essa sua.

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