sábado, 22 de setembro de 2007

AMOR SECRETO [Carla Cintia Conteiro]


Tenho um amor secreto agora. É emocionante viver na clandestinidade, de olhares fortuitos, leves acenos, quase imperceptíveis, quando nos encontramos casualmente, ele com outra companhia, fora de nosso espaço reservado. Nosso acordo funciona bem assim.

Ser casada com um homem que entende a alma humana ajuda. Meu marido não tem ciúmes. Nutre, ele também, afeição por meu amor secreto. Tantas vezes juntou-se a nós quando estávamos brincando. Mas ambos sabem que têm lugares separados no meu bem-querer, estão conformados e satisfeitos. É um bom arranjo.

Não nutro culpa ou qualquer outro tipo de encucação. Não haveria motivo. Foi bom ter estudado psicologia. Assim, quando ele passa por mim, fingindo que não me vê, mal indicando que percebe minha existência, sei que não é para zombar do meu coração. É assim mesmo. Ele não pode expressar o amor que sente por mim publicamente. Não é rejeição ou algo parecido. É necessário manter este comportamento. E esse jogo é até divertido.

Sei que depois, a sós, ou diante de quem não poderá comprometer sua reputação, ele me abrirá novamente os braços, me encherá de beijos, me acariciará os cabelos, me falará com a doce voz, cheia de dengo e manha. Nosso cantinho é cheio de cafuné e carinho, mas ninguém pode saber. Se conto aqui sobre nosso amor secreto é porque sei que os olhos e os ouvidos de quem não deve saber dele, não chegarão a este sítio e esta informação confidencial - a de que eu o amo profundamente e que ele também me ama para sempre - permanecerá em completo sigilo. Não traio meu amor secreto. Nosso amor é cheio de silêncios e discrição.

Porque, vocês sabem, mãe abraçando e beijando filho em público a partir da puberdade e até o início da idade adulta é o maior mico. Quando ele sai com os amigos e a gente se cruza por aí, é bom fingir que nem viu. O melhor mesmo é fazer de conta que nem conhece. Um gesto rápido e bem pequeno é o máximo tolerável. Desta forma, vivo uma história de amor às escondidas com o rebento, contando com a cumplicidade do meu marido, também conhecido como pai dele.

Quando os amigos dele ficam para trás e chegamos em casa, tudo muda. Volta o grude normal de sempre, tenho de volta meu menino carinhoso, cada vez menos menino.

E assim, vivo esse amor, tão alardeado desde que essa criaturinha surgiu na minha vida, mas que agora precisa ficar oculto para que ele viva sadiamente a ligação com seu grupo e a ruptura com os pais, fundamental para o seu crescimento. Bem, ao menos enquanto se está jogando para a galera.

Fel - Amargando Felicidade

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla Cíntia, sua danadinha, você me enganou! Isso não se faz. Eu já estava me coçando para comentar com uns versos que fiz, e você me vem com essa de amar clandestinamente o próprio filho? Francamente!

Brincadeirinha. :) Maravilha de crônica. Essa semana me pediram uma indicação de uma crônica que tivesse uma revelação que, para um leitor atento, já poderia estar subentendida. Eu não soube indicar a tal crônica. Hoje, eu saberia. :) Parabéns!

Clara disse...

Que beleza de Crônica.
Meus parabéns.
Fiquei emocionada.

apá silvino disse...

coisa mais linda!!!! tb tenho um amor assim mesmo!!!
beijos minha querida!!!!
apá