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SOBRE SEMÁFOROS >> Carla Dias >>

Tirei a manhã para respeitar completamente os semáforos. E onde eles estavam em falta, gastei um tempo preguiçoso esperando que não viessem carros nem de um lado, tampouco de outro. Sabe o que é isso aqui em São Paulo? É esperar movimento de feriado em dia útil.

Aproveitei para caminhar com tranqüilidade, passo avesso àquele que me conduz, diariamente, ao trabalho. Segui observando a correria das outras pessoas; os pontos de ônibus lotados, esperas que iam além da espera pela condução. Talvez houvesse também a espera pela condição... A de se respeitar todos os semáforos, de vez em quando; desrespeitando o ponteiro do relógio que nos induz cumprir a realidade que se nega a perceber mais do que pontos finais. Sabe como? Ponto final para o dia doído de tão corrido que foi; para as amarguras cultivadas no trabalho; para a irritação de ter errado a mão quando necessitava de todo o talento para executar tarefas; para a decepção de ser coroado, a cada erro, como alguém desprovido de acertos.

Nessa manhã, respeitei semáforos. Observei essa rua do meu bairro, Desembargador do Vale, onde há lojinhas em casas tão bem cuidadas que a gente sabe que pode entrar e se sentir como na mercearia de quando éramos crianças e acompanhávamos nossas mães. E os donos sabiam os nomes de todos, inclusive das meninas e meninos que compravam balas, aos domingos. Ou mesmo naquela padaria que era de um tio, na qual os primos se reuniam para tomar coca-cola. E apesar do crescimento desembestado dessa São Paulo, de onde somem as vilas, até mesmo da Vila Pompéia, lugares como estes, cuidados com um zelo que não há na eficiência das grandes empresas que oferecem todo sossego mediante um bom pagamento; e não sou contra esses lugares, já deixo claro... Mas é que estas lojinhas, cafés, livrarias, estes lugares que têm a cara de quem os criou, enfim, eles nos oferecem esse quê de aconchego tão necessário quando estamos em dia de parar em todos os semáforos; de não atravessarmos as ruas ao toque do descontrole que há na urgência que, muitas vezes, sequer percebemos aonde nos levará.

Costumo dizer que, em São Paulo, somente ruas onde vivem pessoas afortunadas ou comércios chiques, têm muitas árvores, como deveria ter em toda cidade. Em todo o país! Mas tenho de confessar que, depois de parar em todos os semáforos; de andar com o olhar arco-íris. De vivenciar a languidez do tempo... Deitei-me e observei, antes de cair num sono profundo, que a luz do Pão de Açúcar, que tem em frente a minha casa, empurra para dentro da minha sala (sim, eu durmo muitas vezes na sala) o esboço de uma árvore; o balanço de suas folhas.

Posso não ter um real no bolso, mas tenho os semáforos e as casas da Pompéia para observar. E uma árvore em frente ao meu prédio que, à noite, entra e se sente na sua própria casa. E assim me sinto repleta de riquezas.


www.carladias.com

Comentários

Lindo, lindo!

Eu fiquei imaginando a felicidade dos semáforos, pois os semáforos também precisam ser amados em seus verdes e vermelhos, e até em seus fugazes amarelos.

Essa é uma daquelas crônicas bem crônicas, típicas, que eu adoro e que dá vontade de reler Rubem Braga.

Grato por esse presente.
Debora Bottcher disse…
Sempre lindas suas divagações, em cenários perfeitos e emoções latentes... Escreves como um anjo: leve e densa ao mesmo tempo.
Beijo grande.

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