domingo, 23 de setembro de 2007

GOL DE CRÔNICA >> Felipe Holder

Já joguei muitas peladas na vida, mas jamais pensei que fosse vibrar tanto com um gol. Muito menos com um gol feito contra o meu time. Mas aconteceu.

Domingo, 31 de agosto de 2003. Eu, minha irmã Renata e minhas duas sobrinhas — Roberta e Pollyana — fazemos aniversário nos primeiros dias de setembro, e naquele ano Renata teve a idéia de alugarmos uma chácara bem grande onde teríamos um final de semana inteiro só de festa.

Pois bem, jogávamos uma partidinha de futebol familiar e comemorativa. Na pelada (é assim que chamamos, em Recife, esse jogo entre amigos) estavam quase todos os presentes ao evento: pai, filho, filhas, netos, netas, irmãos, tios, sobrinhos e amigos. O jogo estava empatado, quando meu amigo-quase-irmão Ricardo recebeu a bola no meio de campo e iniciou um contra-ataque. Eu era o último jogador entre ele e o gol, e não tendo muito o que fazer, corri pra cima dele pra ver se ele se assustava ou, pelo menos, tocava a bola pro lado dando tempo dos outros voltarem pra me ajudar. Esperto, ele não esperou minha chegada e mandou a bomba dali mesmo, a uns dez ou quinze metros do gol (agora imagine a continuação do lance em câmera lenta).

Parei e fiquei acompanhando a trajetória da bola, que subiu, parecendo que ia passar sobre a barra, e caiu de repente. Nosso goleiro Aires (ou simplesmente Titio) nem esboçou reação: apenas ficou olhando ela bater no travessão e sobrar na entrada da pequena área, onde alguém surgiu de repente pra chutar de primeira, pegando na veia, fazendo a bola literalmente estufar a rede e cair dentro do gol para entrar em sono profundo. Por um segundo pensei em lamentar o lance, mas quando percebi quem era o “matador” abri um sorriso e parti para o abraço: era meu pai! Era Stanley, aos 77 anos, fazendo seu golzinho — ou melhor, seu golaço! Aí virou festa. Todo mundo correu pra comemorar junto com ele: eu, Renata, Pollyanna, Roberta, Sue, Keilla, Paloma, Pérola, Camila, Márcio, Titio, Ricardo e Rafa. Até Brendinha, nossa dachshund, entrou na roda. Gréia geral!

O feito não entrou no Guiness mas está devidamente registrado na memória da família — com direito até a foto, tirada poucos segundos antes do golaço. Com um atraso de quatro anos, presto ao meu pai uma homenagem: em vez de placa, uma crônica.

Poder jogar com meu pai novamente, depois de mais de vinte anos, foi uma grande alegria. Hoje, quatro anos depois daquele gol, ele diz que não quer jogar mais. Diz que “está velho” pra isso. Eu desconfio que é modéstia. Ele não quer é fazer outro. ;)

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Meu amigo, ainda bem que você decidiu que não está velho pra isso (pra escrever), ainda bem que deixou a modéstia de lado e nos presentou com outra crônica já na semana seguinte à primeira crônica. A sua alegria de filho é a minha alegria de leitor. :)