sábado, 8 de setembro de 2007

A DOR QUE NÃO TEM NOME [Maria Rita Lemos]

Amar e ser amado é tudo o que se quer. Com amor, tudo que se faz parece ter mais sentido, a vida tem mais cor, as coisas banais parecem mais prazerosas. Por isso, a separação, quando acontece, dói muito, de um jeito impossível de definir. Uma dor que não é só solidão, que não tem nome.

Quando a separação é inevitável, e vem sendo apenas adiada, como quem empurra a sujeira para baixo do tapete, cedo ou tarde chega o dia em que uma das duas pessoas envolvidas, ou ambas, admitem que o relacionamento acabou, está só no papel, ou nem está nele. É tempo de fazer as malas, é tempo de sofrer esse luto, que existe mesmo quando o amor não existe mais.

Estar sozinha implica em muitas pequenas coisas, que como definiu Chico Buarque, são “a soma de tudo que chamam lar”. O controle da TV finalmente está nas suas mãos (antiga reivindicação...), mas na prateleira faltam livros, a estante dos CDs está desfalcada, o armário do banheiro esvaziou de repente, deixando sua escova de dentes lá dentro, sozinha, vazia como você. É o momento em que se fica frente a frente consigo mesma, com o sonho que não deu certo, a boneca que quebrou, o amor que se jurou eterno e, como vidro, se quebrou. Daí a dor, daí a necessidade de se repensar a vida, não sem antes admitir o luto.

As pessoas, quando se separam, sentem-se perdidas e sem rumo porque todo relacionamento (e quanto mais longo mais isso acontece) implica numa fusão dos egos, é como se não existisse mais “você” e “eu”, mas uma nova entidade chamada “nós”. A separação rompe esse parâmetro, então é preciso reencontrar o ego, desconstruir para voltar a se encontrar. Nesse período, vale tudo o que puder ajudar: o colo da mamãe, quando ainda está disponível, a conversa com as amigas (cuidado com as que se comprazem com a dor alheia...) e, muitas vezes, a ajuda de um profissional de Psicologia se faz necessária para que esse período de perda e luto seja melhor enfrentado. Por mais que as amigas e amigos se esforcem, não há conselho que ajude. É como quebrar um osso: o gesso ajuda, o anti-inflamatório e o sedativo ajudam, mas só o tempo pode resolver o problema definitivamente.

Há, porém, formas de se minimizar o sofrimento, e o auxílio psicológico está entre elas, quando a dor não é de osso, mas é de alma. Se você quebrar um osso e não procurar socorro, pode ter graves complicações; da mesma forma, as dores de amor dependem principalmente do tempo, mas é preciso ajudar o tempo a fazer o seu papel.

Toda separação é dolorosa, essa é a grande verdade. Mesmo que as pessoas envolvidas neguem. Refazer a vida, reorganizar o tempo sem a outra pessoa, por pior que estivesse a relação, implica numa desconstrução que muita gente não consegue fazer, ou faz muito mal, e continua sofrendo, tanto ou mais do que quando estava numa relação péssima. Há pessoas que se deprimem, outras somatizam a dor, ficando doentes, outras ainda engordam demais ou param de comer. Todas sofrem. No entanto, vale também aqui o ditado popular: “não há mal que sempre dure nem bem que para sempre perdure”.

Começar de novo, reorganizar a rotina é difícil, mas muitas vezes é necessário, para que se continue a viver, e viver bem. Quem sabe, até bem melhor do que se vivia antes. No entanto, é preciso saber passar pela tormenta, antes que venha a calmaria.

Palavra de Mulher

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bem-vinda de volta, Maria Rita! Esse assunto de separação dá até dor no coração de quem lê. :) Mas contar com palavras serenas como as suas é muito bom para um leitor que sofre com a dor alheia e com a própria dor passada.

Blog do Cintrão disse...

Oi, Maria Rita.
Muito bonita a sua crônica. Só a li hoje porque sou muito desorganizado.
Essa coisa a fusão de egos é muito interessante. Eu nunca pensei desse jeito.
As separações sõa guerras mundiais que não saem nos jornais.
Um abraço,
Maurício Cintrão