sábado, 14 de setembro de 2013

PAQUERA DE MOTORISTA [Ana González]

Ela chegou esbaforida e sentou-se do meu lado no primeiro banco logo atrás do motorista. Tive que me encolher porque ela era alta, cheia de corpo e ainda tinha uma criança no colo. Olhei de lado e senti vontade de ajudar, porque ela carregava também uma bolsa e uma garrafinha de água. Mas, a mãezinha tinha habilidade e experiência. Não precisou de mim.

Ela agradeceu o motorista que acabara de se ajeitar do banco e avisou que desceria no ponto da Praça 14 Bis, ao que ele respondeu que ela o esperasse parar o ônibus antes de se levantar do assento. Cuidado com a criança?

Depois que ela se tranquilizou, comentei que ele era um motorista educado e atencioso. Ela abriu um sorriso largo e completou: “Raro mesmo, diferente, dá gosto. Tomara todos fossem assim.” No que ele, ouvindo, respondeu: “ Pois então chegue até o ponto final.” Ela então disse prontamente que iria mesmo se não tivesse que parar, pois o prédio em que morava era logo ali, aquele verde e apontou. E se a filha não estivesse cansada e com fome. Ele disse: “Pena mesmo.”

Pronto. Estava firmada uma paquera explícita. Ele estava com meio sorriso na boca, satisfeito por algo, certamente. E eu fiquei observando aquela cena com uma alegria infinda. Acabava de ser cúmplice de algo muito especial dentro de um dia-a-dia qualquer. Tratava-se de um encontro, com certeza, daqueles que abrem uma janela em nossas vidas, por onde entra um sol lindo demais.

Aquela cena deve ter tido um antecedente. O que teria acontecido nos momentos em que ela subira no ônibus, pouco antes de ele ter tomado o lugar do motorista? Teriam se avistado na calçada em que o ônibus estava estacionado? Teriam trocado olhares? Há momentos em que olhares preenchem um vazio enorme, preenchem dúvidas e respondem nossas questões. São gestos que dialogam com nossas ausências e a partir deles tudo faz sentido. A vida se assenta e nossas mazelas se dissolvem no ar. Nesses momentos tudo se liga magicamente, como se houvesse algo nos entre-tempos e nos entre-espaços. Tudo justo e harmonioso.

Olhei para ela e havia uma boniteza feminina naquele rosto redondo de olhos vivos e amendoados, cabelos castanhos lisos e presos. Sua voz era firme e o tom certeiro, sem hesitação ela topara a situação e fora assertiva na hipótese de que iria com ele para onde ele quisesse. Ela sairia de seu caminho e ficaria a seu lado, porque ele assim o desejara. Ela aceitara a corte. Iria, não fosse a filha no colo, a hora avançada e mais todos os possíveis enredos de sua vida. Pedras no meio de um caminho que poderia ser diferente. Mas era como tinha que ser. Ele também sabia disso. Fez o que devia como homem que sabe o que quer. Homem que pode.

Em casos como esse a vida às vezes diz sim, os anjos dizem amém. Mas, naquele dia, já que um sim era impossível, a vida dizia um talvez. Isso foi feito: dizer o sentimento, dar a passagem e o sinal positivo.

E com um talvez, com a aceitação das limitações e de uma realidade inóspita, mesmo assim, acredito que esse diálogo tenha plantado a esperança na vida dela, assim como deve ter plantado também na vida do motorista. Assim como plantou também no meu coração. E até no coração do casal idoso que no banco ao lado assistia a tudo sorrindo. Talvez concordassem que o motorista era especial, que ela também era. Percebendo tudo, abençoavam a doce cena.

Aquele homem deflagrara um evento. Era um motorista perfeito. Diferentemente de seus trajetos habituais, nos guiara a outro lugar. Uma viagem pouco convencional. Ele tinha levado todos nós para onde deveríamos estar sempre. Naquela viagem de ônibus urbano tínhamos vivido uma experiência rara. Ganháramos uma disposição para topar a vida com alegria, com olhos calmos e o coração pronto para o amor.

http://www.agonzalez.com.br/



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5 comentários:

Ana Claudia Vargas disse...

Ana, o que você escreveu dessa forma tão iluminada também plantou esperança no meu sábado! E te agradeço por isso (estava precisando rs). E eu espero, de coração, que esses dois possam (quem sabe?) levar a paquera adiante...

beijo e bom sábado pra você!

Constantino disse...

Ana, minha cara, gostei!
Tal como sua crônica revela, reconheço que utilizar o transporte coletivo abre um campo de impressões supreeendentes. No ônibus, no metrô, sou sempre tocado pelo enigma do outro, pela proximidade física e visual de seres que não fazem parte da minha convivência diária.
Aprendizados!
Abraços do Consta

Ana González disse...

Ana Cláudia, que vc possa ficar bem! Que se realizem suas esperanças. Obrigada pela leitura.Bjss

Consta, tenho tido oportunidade de relatar (ai que o espaço deste site é generoso!!!) situações como essa em que no meio de algo bastante prosaico, acontece algo diferente. Impressões surpreendentes, como vc diz e descreve. Bom ter sua presença por aqui, amigo.

Zoraya disse...

Ana, você tem a obrigação moral de sempre relatar esses momentos únicos que seus olhos enxergam tão bem e sua sensibilidade nos traz com tanta leveza.

seramigo disse...

Só mesmo partilhando esse seu gostoso e sensível jeito de transcrever as emoções de Vida, essas sim, fazendo sentido ao Viver. Por isso, apesar de ser de setembro, postei chamada no blog-seramigo:http://wilson-seramigo.blogspot.com.br/2013/11/765-dicas-ideias-servicos-dis-lazer-e.html