Pular para o conteúdo principal

COLECIONANDO >> Carla Dias >>


No universo dos colecionadores se encontra de um tudo. Mas há colecionadores que não estocam produtos na sala de estar, não preenchem espaços físicos. Que passam pela vida como se colecionar não fosse parte de suas vidas. Esses são os colecionadores mais intrigantes.

Quem nunca conheceu um colecionador de status, ainda o conhecerá. Aquele sujeito que adora títulos, que por eles faz e acontece, sem se importar com as consequências, contanto que alcance o seu posto no pódio.

Colecionar títulos é bem diferente de conquistá-los. Na conquista, há um prazer muito mais atencioso com aqueles que caminham ao nosso lado, já que, para alcançar qualquer objetivo, precisamos que outras pessoas também cumpram os seus papéis. Além do mais, a conquista lida com as emoções, enquanto um colecionador se dedica a controlá-las como um meio para se atingir um fim.

Já me deparei com muitos colecionadores de lamentações, aquelas pessoas que não sabem fazer outra coisa que não seja se lamentar. Quando acontece algo trágico com alguém próximo, o colecionador de lamentações toma para si a questão. Como se a vida do outro ter sido virada ao avesso afetasse a dele, já que terá de lidar com amenas transformações, que na versão do colecionador de lamentações são verdadeiros tsunamis.

Mas já viu colecionador de delírios? Não... Nem todos moram em instituições especializadas em doenças mentais. O colecionador de delírios, quase sempre, é um camaleão. Você não percebe de cara que ele só sabe viver em função de dialogar com o improvável. Em um primeiro momento, você se permite envolver profundamente pela capacidade dele de seduzir os seus sentidos. Há um apaixonamento instantâneo, seguido pela compreensão de que não há como viver o tempo todo debruçado na imaginação. Que é preciso por os pés no chão, para que a cabeça nas nuvens traga algo de positivo para as nossas vidas.

Colecionadores de silêncio são taciturnos. Alguns evocam a falta de gentileza, como o moço que faz a leitura da Eletropaulo aqui do trabalho. Toda vez que ele toca a campainha, eu o recebo com um “bom dia”. E toda vez ele não responde. Mas isso não me desanima, porque meu desejo de que ele tenha um bom dia é sincero. Fico pensando que deve ser muito chato ser incapaz de corresponder ao desejo de um bom dia.

Há também os colecionadores de silêncio, eles que vivem para dizer muito sem emitir palavras. Eles adoram ser decifrados, e em 99,99% das vezes, o decifrador está errado. É por este 0,01% que os colecionadores de silêncio esperam. E já que a esperança é a última que morre...

Colecionadores de corações partidos são dos mais atrozes. Claro que um colecionador pode sofrer muito com o seu transtorno. Porém, ele também é um manipulador de primeira, com a capacidade de manter pessoas por perto, ao seu dispor, mesmo quando não as ama e delas nada quer. A ideia de habitar as emoções alheias, de ser tão importante para as outras pessoas - a ponto de elas não conseguirem levar a vida sem a possibilidade de ver e escutar o que seu colecionador de corações partidos tem a dizer -, chegando a escravizar seus espíritos, alimenta o próprio coração partido desse colecionador.

Na minha infância, colecionar tampinhas de garrafas de refrigerante era o mais próximo que poderia chegar de ser uma colecionadora. Porque, obviamente, também eu faço parte desse balaio. E sou das colecionadoras do que não se vê e tampouco se estoca. Eu coleciono pensamentos... E você pode imaginar o quanto isso pode ser inquietante?

E profético...

Pode ser patético...

Vez em quando: poético.


Imagem: sxc.hu

carladias.com

Comentários

silvia tibo disse…
Lindeza de texto!!!
Adorei!!!
:)
Zoraya disse…
Faço coro com a Silvia e digo mais: tá naquela linha dos profissionais extraordinários, que você publicou há alguns anos. Cadê o livro?
Carla Dias disse…
Silvia... Obrigadíssima, minha cara. E beijo!

Zoraya... O livro vai sair, mas tempo é uma coisa que não sei medir. Já comecei a mexer nele, mas acho que falta muito para torná-lo o que desejo que ele seja. Mas ele acontecerá :) Beijo!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …