sábado, 21 de setembro de 2013

A MESMA ÁRVORE [Ana Claudia Vargas]

Todos nós estivemos no mesmo lugar, à mesma hora, no mesmo dia e sequer havíamos marcado encontro. Foi simples e natural nossa ida àquele lugar sem que houvéssemos combinado. No domingo das lojas fechadas, algumas poucas abertas; a praça estava cheia de idosos que dançavam músicas antigas dos tempos grandiosos; de crianças levadas pelas mãos de seus pais atentos ou displicentes; e havia ainda o córrego quase transbordante das chuvas da noite anterior e suas águas barrentas e opacas e mais as nuvens carregadas da outra chuva que haveria de cair dali a pouco (como de fato caiu). Era final de verão.

E, no meio de tudo, nós que sequer havíamos marcado encontro, como já dito, nós todos – a família, esse núcleo de criaturas humanas que se assemelham somente porque dividem a mesma origem biológica – nos espalhamos pelas alamedas da praça, nos juntamos quando a chuva se fez mais forte sob o mesmo teto e eu me lembro das lojas cheias de turistas apressados e ávidos por comprar e comprar - e nós todos, como todos os outros que ali estavam, carregamos nossa solidão conscienciosos como se moradores de um convento secular e pouco nos atrevemos a ir ao encontro de um ou outro de um jeito que ultrapassasse a superficialidade daquele passeio singelo do domingo de manhã.

Foi assim que nós todos juntamos nossas ausências ali, no meio da praça do domingo sob o sol ameno que depois se tornaria chuva incessante e, apesar disso ou justamente por isso, é que soubemos intimamente (e isso é algo secretíssimo, algo que só se conta em invencionices como essa ) que sim, somos de fato e verdadeiramente uma família.

Pois uma família é exatamente isto: carregar nossas solidões sob as intempéries do tempo que recobre o mundo – seja ele qual for - e nos sentirmos acolhidos quando somos fracos, quando estamos sob pingos grossos de chuva sem uma sombrinha velha sequer que nos cubra ou quando ficamos adoentados e, ainda, quando estamos com fome ou quando descobrimos com algum ranço de revolta ou resignação que não há nem nunca haverá remédio para o fato de que nada que se faça nessa vida vai mudar o rumo do que quer que seja – destino? Padrões genéticos? Filosofias rasas ou complexas? Deus...? – e que, nesse caso, é o fato de estarmos presos de forma definitiva a todos os outros frutos e sementes dessa mesma árvore: a família.

Essa árvore de tronco grosso como um jacarandá, um carvalho ou uma paineira; árvore grandalhona e de galhos compridos espalhados – alguns até se encontram no topo ou nas laterais como que se buscando afoitos em meio à arquitetura algo caótica e deslumbrante das folhas – que florescem nas estações certas (apesar dos pesares), espalham suas sementes pelos chãos e pelos ares; estas árvores quase petrificadas de tão remotas, estes verdadeiros monumentos orgânicos que deixam entrever algo de Deus em suas folhas lustrosas, suas grossas e duras cascas e suas (quase sempre) raras e tão esperadas flores.

Quando vemos uma árvore dessas, assim antiquíssima, mas ainda resplandecendo seiva e frescor, e a vemos envolta por pássaros numerosos e tão diversos como bem-te-vis, anus, pardais ou sanhaços, e percebemos, quase comovidos, como elas oferecem à paisagem dantesca desse mundo o frescor luminoso de suas sombras bordadas na terra como se pinturas caprichosas e tão delicadas...

...pois quando estive diante de uma árvore dessas num domingo de manhã, entre os meus, foi que pensei que uma família também é (ou deveria ser) como uma dessas grandes (grandes) árvores: um lugar onde o afeto pudesse sempre ser compartilhado de forma serena e nunca (nunca) fosse usado como moeda de troca ou como as migalhas que às vezes somos obrigados a buscar em terras distantes – como passarinhos desorientados - porque a ‘nossa’ árvore se esqueceu de produzir alimento suficiente para todos. E, então, se assim fosse, nós todos seríamos como essas aves tão diversas de origens e cantos que voam pra longe – para o sul ou para o leste – que atravessam os céus de sob oceanos e caatingas, mas sempre retornam para os galhos dessas grandes e acolhedoras árvores.

Uma família deveria ser como as grandes árvores, isso eu pude apreender naquela manhã.




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Um comentário:

Suzi (vulgo, Emilie) disse...

Caramba, que texto singelo! Eu amei. Há tanto significado aí. A árvore sendo usada como metáfora para a família. As interpretações são semi infinitas...