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A ASSINATURA >> Whisner Fraga

Trabalhando no oitavo andar do Edifício Ituiutaba, eu utilizava muito o elevador. Verdade que algumas vezes eu preferia a escada, mas só nos dias em que o calor dava uma trégua. Perto do botão que usávamos para chamar o veículo-caixote, várias assinaturas asseguravam que, algum dia, seus donos passaram por ali. Era uma tentação para o egocentrismo de um adolescente.

Sempre tive esse desejo de me sobressair, essa arrogância de um idiota que queria seu lugar à sombra, de modo que, naquela tarde, levei a minha caneta vermelha. Os outros nomes vinham em tinta azul ou preta, o que dava uma monotonia desconcertante ao cenário todo. Eu desejava dar um pouco de cor à placa de alumínio que envolvia o botão branco. Caprichei no meu nome, todo em letras maiúsculas: WHISNER. O cuidado fora tal que parecia uma obra de arte em meio a garranchos.

Desci feliz rumo ao banco: precisava pagar alguns boletos para o patrão. Imagino que tenha sido o Sô Bete que descobrira a minha assinatura naquele mesmo dia, ao rumar para casa, pouco antes do fim do expediente. Já o reconheço voltando ao escritório e avisando meu pai do ocorrido: "Você precisa dar um jeito no moleque, Mamede. É um menino bom, deve ter sido influenciado por algum amigo." Trabalhava com meu pai e com o velho Gilberto Cancella e, se eu tivesse feito algo de errado, sabia que eles me repreenderiam. Como era início de noite e nenhum dos dois falara comigo, esqueci o assunto.

Ao chegar em casa, minha mãe veio nos receber com a testa franzida e com as sobrancelhas quase unidas, como se formassem uma só. Tremi. Só quem conheceu mamãe brava sabia o que aquilo significava. Se a coisa toda descambasse em uma bronca, me sentiria um garoto de sorte. Na sala, ela ordenou que me sentasse. Obedece quem pode e, quando ela percebeu, eu era um pequinês abanando o rabo, esperando perdão e, quem sabe, um afago na cabeça.

Meu pai assistia a tudo, como um juiz. Logo descobri o motivo da reunião: era a minha assinatura escrita em vermelho, ao lado (ou abaixo, não me lembro) do botão. Eu devia levar um pano umedecido no dia seguinte e apagá-lo. Aquilo não se fazia, era coisa de gente pobre de espírito, devíamos preservar nosso nome acima de tudo, que vergonha, o que as pessoas iriam dizer? e assim por diante. O sermão foi comprido, mas ficou por isso mesmo.

Além de não deixar rastro, tive de ir ao Sô Bete pedir desculpas. Pelo que me recordo, fui também até o zelador, até o porteiro, ao ascensorista e também me desculpei com eles. Devo ter falado com umas dez pessoas. Minha família sempre foi assim: pronta a se penitenciar a respeito de qualquer assunto.

Comentários

Fabio de Souza disse…
É tão gostoso ler essas crônicas. As horas passam silenciosamente.
whisner disse…
Oi Fabio, outra vez obrigado pela leitura. Um abraço.

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