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IN MEMORIAM >> Whisner Fraga

Para uma criança, presenciar aquele senhor oferecendo a sua mansão em troca de uma casa de classe média, recém-construída, está claro, mas ainda de classe média-baixa, era coisa séria. Moleque leva tudo a sério demais. Fato é que, quando ele me pediu a opinião, fui taxativo: não. Eu gostava de meu quarto, que dividia com dois irmãos e que devia ter uns três metros quadrados de área útil, descontados os espaços ocupados pelas camas e pelo guarda-roupa.

Mais tarde, na adolescência, me aproximei mais deste senhor: cheguei a trabalhar para seu filho, em uma vídeolocadora. Aos sábados, o estabelecimento funcionava o dia todo, até o final da tarde. Não eram raras as aparições do pai de meu patrão, que me pedia que colocasse um filme para a gente assistir. Como o movimento era fraco depois das quatro, era sempre possível.

Certa vez, estávamos a ver "Trocando as bolas", com Eddie Murphy, um blockbuster bem previsível dos anos oitenta, hoje quase um clássico, quando começaram a desfilar mulheres de seios de fora pela tela, o que nos assustou bastante. Daí que ele quis checar: você colocou um filme de sacanagem? E terminamos por rir do mal-entendido. Acho que ele sabia que a Dona Dagmar, sua esposa, não aprovaria a atitude e, é claro, tampouco alguém de minha família.

Para mim, ir à Agropecuária Vianna do Castelo era uma aventura. O escritório situado no Edifício Ituiutaba, tinha tudo que representava o sonho de um jovem que sonhava com a literatura: a assinatura da revista Visão, duas ou três máquinas de datilografia e papel à vontade. É claro que eu passava apressado pelas colunas políticas da Visão para chegar logo aos textos sobre cinema e cultura. Eu não sei se o Sr. Bete, como o chamávamos, se interessava por artes, mas atesto que ele era um leitor atento, a julgar pelos óculos que nunca abandonavam os olhos fixos no jornal do dia.

Minha família deve muito a ele e se eu deixo para contar a razão no final desta crônica, é porque sempre foi muito difícil falar sobre o assunto. Minha mãe precisava urgentemente de uma cirurgia no cérebro e, é claro, não tínhamos dinheiro o suficiente para bancar a intervenção. Veio o Sr. Bete em nosso auxílio: bancou hospital, viagem e tudo o que não tínhamos direito. E pagou, até onde sei, os melhores médicos do país, pois o trabalho foi tão bom, que minha mãe não ficou com nenhuma sequela.

Devemos muito ao Gilberto Cancella, mas, de minha parte, nunca poderei pagar, pois soube que ele faleceu no final do mês passado. Fiquei triste, como se fosse um amigo que partia. Durante muito tempo acalentei o desejo de voltar ao oitavo andar do Edifício Ituiutaba, para revisitar um pedaço da história deste senhor, mas acho que ela é muito mais bonita e interessante onde está: em minha memória.

Comentários

Fabio de Souza disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabio de Souza disse…
Nossa, muito bom, muito bom.
Parabéns. Me transmitiu emoção.
Whisner, se prepara que a partir de hoje você tem mais um fã. Vou ficar ansioso à espera de novidades, novos contos ou novas crônicas. Obrigado por existir.
whisner disse…
Oi Fábio, obrigado pela leitura. Estou visitando seu blog neste momento. Um abraço!
Carla Dias disse…
Algumas pessoas fazem isso, não? Passam pela gente, mudam algo, ajudam em momentos determinantes, e ficam nesse lugar mais bonito da nossa memória.

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