domingo, 1 de setembro de 2013

CORPINHO DE 31 >> Sílvia Tibo






Cruzar a fronteira dos trinta anos me trouxe algumas novidades: fiozinhos brancos no cabelo, marcas de expressão mais insistentes (já clamando por botox) no rosto e, o pior, certos quilinhos que, se antes eram até bem-vindos, agora nem com reza desaparecem do corpo. 

Cá entre nós, a sensação que tenho é de que, à medida que a idade avança, certas características e comportamentos, assim como os fios brancos, as rugas e as gordurinhas, vão ficando mais evidentes e exagerados. 

Explico. No meu ranking de coisas-chatas-mas-necessárias-da-vida, sem dúvida, o primeiro lugar é ocupado pelas consultas médicas e odontológicas. E, claro, por todos os exames e procedimentos que, em regra, vêm incluídos no pacote. 

Nada contra os profissionais da saúde, absolutamente. Aliás, cada vez mais admiro a tolerância e boa vontade que muitos deles têm com pacientes infantis e medrosos como eu. 

Sem rodeios ou falsas declarações, euzinha aqui, que me considero razoavelmente controlada e minimamente madura nas situações da vida comum (o que, aliás, é o mínimo que se espera de uma senhora de 31), quando a conversa acontece dentro do consultório médico ou na cadeira do dentista, não passo de uma menina medrosa e dramática. E aí, confesso, nem eu me aguento. 

Felizmente (mil vezes felizmente), não tenho nenhuma doença crônica ou grave que me obrigue a visitar esses profissionais o tempo todo. Também, que fique claro, nunca fui destratada por qualquer desses seres de branco, a ponto de guardar traumas ou qualquer coisa do tipo. Mas, por razões que meus próprios neurônios e nervos desconhecem, o fato é que tudo o que se refere a eles me causa imenso pavor. E aí, até mesmo aquela coleta rotineira e anual de sangue, pra ver como andam colesterol, triglicérides e glicose, torna-se um verdadeiro martírio pra mim. 

Depois de alguns adiamentos, anteontem foi dia dela. Sim, da coleta rotineira-dramática-e-temida do meu próprio sangue. Essa crônica, por sinal, só existe em razão desse evento pavoroso. 

Era cedo e o laboratório estava cheio, como de costume. Enquanto esperava pela minha vez de ser picada, numa das muitas cadeiras do lugar, saquei da bolsa o bloquinho de papel sempre presente e comecei esses rabiscos, na tentativa de mudar o foco e esquecer o que estava prestes a acontecer.

Eis que, no meio das palavras... Ui, ui, ui! Ouvi chamarem o meu nome. E antes que eu ameaçasse qualquer tipo de evasão, a enfermeira, gentil e sorridente, me capturou e me conduziu a uma daquelas cabines brancas apertadas e sem janelas, que, penso eu, são assim projetadas exatamente pra que pacientes da minha estirpe se sintam verdadeiramente imprensados, sem a menor chance de fuga. 

Na minha cabeça (que, ressalte-se, àquela altura se equiparava à de uma criança de não mais que dez anos), tamanha simpatia e gentileza, exalada por essas moças de jaleco, não passava de um truque pra disfarçar a sua malvadeza. 

Eu sei, eu sei. Na vida real, enfermeiras não são necessariamente malvadas. Pelo menos até onde vão meus precários conhecimentos sobre o assunto, esse não é exatamente um dos pré-requisitos para o exercício da profissão. Mas, para a criança de dez anos aqui, quando essas moças (e rapazes) vestem a capa branca e empunham saquinhos cheios de agulhas enormes e potinhos prontos pra serem abastecidos do meu sangue... Ah! Aí, definitivamente, não há gentileza que me faça parar de tremer. Nem há sorriso capaz de me fazer acreditar nas suas boas intenções. 

De volta à saga da coleta de sangue, na cabine do terror, a doce e malvada moça do jaleco branco, como sempre, não encontrou a “veia ideal” na primeira investida, o que significava, claro, que eu seria picada ao menos mais uma vez.

Aliás, falando nisso, que diabos vem a ser, propriamente, a tal da “veia ideal”? 

Seria ela a mais viçosa, bonita e atraente? Ou apenas a menos sortuda, que (coitada!) deu de acordar azarada naquele fatídico dia e, então, sem a menor possibilidade de fuga, foi direto para o abate? 

Bem, qualquer que seja (e se é que existe) a resposta pra esse meu (ir)relevante questionamento, o fato é que, naquele dia, depois de três ou quatro agulhadas frustradas, finalmente teve início a invasão (armada, é claro), que, de acordo com a enfermeira, seria tanto menos dolorosa quanto mais eu me mantivesse calma e relaxada. 

“Relaxada? Diante das agulhas e dos tubinhos sugadores de sangue? Na cabine apertada sem janelas, sob a vigilância da moça do jaleco branco? Jura?” – pensou (e quase disse) a minha criança interior, a essa altura completamente dona desse corpinho de 31. 

Bem, deixa pra lá. O fato é que, colhido o bendito “material”, chegara a hora de conferir meu nome nos famigerados tubinhos-do-mal. Sim, porque qualquer coisa cheia de sangue, pra mim, não pode ser do bem. 

Terminada a batalha, ouço a doce (e agora não mais tão malvada) enfermeira me dizer as palavras de sempre, que tenho ouvido desde a primeira vez em que pisei num lugar como esses: “Da próxima vez, tente ficar mais calma! Como você viu, não há nada de mais numa coleta de sangue! Quanto mais tranquila você fica, mais rápido e menos doloroso é o exame”. 

Por que será que, ao sair da cabine, tive a impressão de ter recebido os mesmos conselhos dados por ela ao garotinho de seis anos que estava sentado ao meu lado, na sala de espera, aos prantos, ocupando o lugar imediatamente anterior ao meu na fila do terror?

Hora do prêmio. Ops, do lanche. De volta à normalidade (leia-se: deixando pra trás a criança que por alguns minutos ocupou esse corpinho de 31), nada melhor do que comida pra celebrar o fato de eu ter sobrevivido, depois de um jejum de doze horas, à sangrenta invasão. 

Ao se despedir da enfermeira, a adulta que vos fala pediu um milhão de desculpas e, envergonhadíssima, jurou comportamento compatível com sua idade real durante as futuras coletas de sangue. 

“Pura lorota” – resmungou minha criança interior, medrosa e intrometida. “Ao primeiro sinal de jalecos brancos, agulhas e potinhos do mal, eu volto. Ah! Se volto...”.


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6 comentários:

Fernanda Pinho disse...

Sílvia, querida, sofro do mesmíssimo pânico. Sempre tenho que ir acompanhada quando vou tirar sangue (e ao dentista também. Tenho que ir acompanhada e com fones no ouvido, porque os ruídos odontológicos me arrepiam a espinha). Vou fazer 30 esse mês, achei que a idade daria uma amenizada na situação, bom já estar preparada para o contrário...hehehe

Pelo menos os traumas rendem ótimas crônicas.

Beijos

Leonardo disse...

Não é fácil, pequena! Meu problema é com o oculista. Basta encostar algo no olho que ele pula, treme e revira. Aí a pressão do olho sobe e é uma tragédia... hehehe
Parabéns pelo texto!

Zoraya disse...

Puxa, Silvia, um adulto sem medos é um adulto muito chato! Ainda bem que você tem essa criança aí dentro. Faça como eu, sugestão: sempre que tenho de fazer uma coisa dessas (tirar sangue, fazer ressonância, eca!) eu me prometo comprar um presente bem bonito. E cumpro, claro, que você nao pode prometer em vão a uma criança!

silvia tibo disse...

Fê e Zô,
Adorei e vou copiar as duas idéias na próxima retirada de sangue: os fones de ouvido e a promessa do presente (seguida da compra efetiva, claro)!
Obrigada pela leitura!
:)

silvia tibo disse...

Irmão...
Nem me fale de oculistas... o pânico começa já com aqueles colírios ardentes que antecedem o exame!!!
Beijao!!!

Ana González disse...

Intervenções no corpo sempre são invasivas...rs... mas o pior - entrando nessa conversa - é a descoberta de que há um problema novo neste corpo que se faz velho, e novos exames serão conhecidos... socorro!!!!! rsrsrs.. Sílvia, que relato mais motivador! bjss