quarta-feira, 17 de maio de 2017

O #1 DE IGOR WILLCOX >> Carla Dias >>


Essa crônica é uma crônica sobre afeto. E sobre nascimento. Sobre a transgressão de realizar em tempos em que fazê-lo anda difícil. Sobre a primeira impressão, quando eu, que confio mais na segunda do que na primeira, fui impressionada assim, na estreia.

Afeto é tendencioso? Completamente. Mas se há algo que sempre me acompanhou é a certeza de que nenhum afeto meu merece confetes gratuitos, um vale-amizade. Os amigos sabem que amizade não nubla meu olhar.

Que fique claro que não é crônica de crítico, porque não vou desfiar um rosário técnico a respeito do que seja. É mergulhada em afeto, daquele que reconhece valor e se emociona por esse valor nascer de alguém por quem se tem amizade.

Tenho amigos que admiro também como artistas. Eles andam por aí, colocando obras no mundo, contradizendo aquela ideia - surrada, resultado da mais pura repetição - de que não há nada de bom sendo criado na música, nas artes plásticas, na literatura, na dramaturgia. Há sim, mas é preciso generosidade no olhar; ir além das listas das mais-mais do momento.

Ontem, passei o dia abismada com a leitura de um livro de um amigo. Ainda não finalizado, ainda me falta ler algumas páginas do que já está pronto, a obra desalinhou o meu dentro. Passei o dia mergulhada na melancolia da leitura, na sua urgência, na sua verdade.

Então, mais tarde, recebi um disco que comprei há alguns dias, pelo qual esperava ansiosamente. Disco de um baterista muito querido e talentoso, Igor Willcox. Disco número um, de muitos que virão, para a sorte dos apreciadores da música.

Coloquei o disco para tocar, enquanto conversava com ele sobre o feito, pelo computador. Quem nunca teve de se reinventar, em nome de sua criação, desconhece a importância do aprendizado. Eu acompanho a carreira dele, sei que é um ótimo baterista. Então, foi com alegria que descobri o compositor.

Igor me contou que sempre teve a ideia de compor. Há algum tempo, ele vem trabalhando com produção musical e, de dois anos para cá, dedicou-se seriamente ao piano. Então, começou a compor suas próprias obras. Dedicação é ingrediente poderoso na vida de quem já conhece seu objetivo e se apaixona por ele diariamente. O resultado é que, das nove faixas do disco #1, seis são de autoria de Igor Willcox: Brotherhood, The Scare, Julie’s Blues, Room 73, Waltz for My Love e Lifetime. As outras faixas: Old Friends e Thankful (Erik Escobar) e Brad Vibe (Vini Morales).

Igor Willcox não foi somente compositor e intérprete em seu disco. Ele também foi responsável pela produção, mixagem e masterização de #1. Além de ótimas músicas, o disco conta com a participação de talentosos músicos:  Clayton Sousa (sax), Erik Escobar (teclados), Jj Franco (baixo), Vini Morales (teclados/piano), Rubem Farias (baixo), Carlos Tomati (guitarra), Bocato (trombone), Glessio Nascimento (baixo), Marcus Cesar (percussão), Fernando Rosa (baixo), Bruno Alves (teclados) e Glecio Nascimento (baixo).

O cenário da música instrumental conta com artistas inspiradores. Músicos e compositores que trazem ao mundo obras significativas. Para aqueles que vivem a discursar sobre a pobreza da nossa música, uma pesquisa mais cuidadosa e vocês encontrarão trabalhos extraordinários. E incluam o #1 de Igor Willcox na lista de discos a conferir. Ele merece, sem dúvida, um bom lugar na sua playlist.

Sim, é uma crônica sobre afeto. Conheci Igor Willcox há muitos anos, quando ele participou do Batuka! Brasil e foi um dos vencedores do Concurso Nacional de Bateristas. De lá para cá, acompanho sua carreira. Para mim, #1 é uma lindeza só, porque é um ótimo disco, e também porque é a realização do projeto de um amigo.

Quer coisa mais legal do que alguém realizar algo e essa realização fazer bem também aos outros?

Foto © Zé Cintra


Igor Willcox
Compre o disco: igorwillcox.com/shop

carladias.com



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4 comentários:

Maria Manoela Porto disse...

Como eu faço para entrar em contato? Gostaria de deletar minha entrevista desse link http://www.patio.com.br/5inco/m/Maria%20Manoela%20Porto.html e não acho um contato.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Entrevista removida, Maria Manoela.
Pode ser que leve alguns dias até que todos os servidores da internet reconheçam a mudança.

Zoraya Cesar disse...

"Desalinhou o meu dentro"... mais uma frase lapidar de D. Carla Dias! E que lindo texto de afeto,amizade, generosidade, tudo tão em baixa ultimamente. Vou lá ouvir o seu amigo, Carla, tenho certeza que vou amar!

Carla Dias disse...

Ah, Zoraya, gosto muito do Igor. E o fato de ele ser ótimo tocando e muito bacana compondo, deixa tudo mais bonito. Beijo.