segunda-feira, 29 de maio de 2017

OS NAMORADOS - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 15/05/17)
Tive um pequeno susto quando se desviaram da rota, mas foi só para comprar balas e amendoins, que de fato custam uma fortuna no cinema. Ajuizado esse Pedro. Entraram para assistir uma comédia romântica e eu relaxei. Fui pra casa com a sensação de dever cumprido. A prosperar esse namoro, terei dias de paz.

MARIA EDUARDA

Aquela que vem ali meio escondida é minha mãe. Pensa que não sei que está ali e, só de maldade, já me virei de repente duas vezes. Ela foi obrigada a se abaixar ridiculamente atrás dos carros estacionados.

Tem sido assim por todos os meus quatorze anos, ela acha que controla até minha respiração e eu finjo que sim. Começou com uma bronquitezinha alérgica com que nasci e a deixava histérica por mais que os médicos tentassem acalmá-la. Como veem, sua preocupação é por vezes legítima mesmo exagerada.

Parte dessa neura é culpa do meu pai que exigiu dela, antes de morrer, uma vigilância de dobermann sobre mim. Logo ele, que a engravidou aos quinze e distribuía seu salário entre pensões alimentícias e outras despesas extraconjugais menos nobres. Mas morreu e nos deixou esse peso, vigiar e ser vigiada. Íamos vivendo nem mais felizes nem menos infelizes que ninguém, até que o Zeca chegou na escola.

Eu tentei fazer a coisa certa, inventei trabalho de escola e, depois de um tempo, pedi pra namorar. Alguém ainda pede permissão pra namorar? Eu pedi.

Mas não teve jeito. Ela cismou com o garoto como se ele tivesse o diabo no couro. Ficava espionando a gente e, um dia, expulsou Zeca debaixo de cabo de vassoura.

Lá estava eu trancada, vigiada e solitária, quando apareceu o Pedro.

Pedro era o contrário do Zeca. Voz pausada, sorriso tranquilo, observador, não economizava elogios, falava da mãe e das festas de família. Acho que minha mãe gostou mais dele do que eu. Eram intermináveis as conversas dos dois. Mas, ainda assim, Dona Zéti não descuidava.  Vigilância para ela era sinônimo de maternidade.

Vejo agora pelo espelho que ela está conferindo o cartaz do filme. Parece satisfeita com a doce Meg Ryan e já pode voltar pra casa. Eu e Pedro sentamos na parte de trás do cinema. Meu coração aos pulos, apesar do filme xarope.

                                                                            PEDRO

Louca essa Dona Zéti, mas divertida. Quem ainda segue filha pelas ruas? Quem ainda acha que pode tomar conta de alguém? Ela.

Mas Duda vale o sacrifício. Um amor de garota. Por Duda tenho aguentado conversas intermináveis e vigilância de cão de guarda. E olha que a mãe gostou de mim. Imagina se não gostasse.

Sentamos na última fileira e eu levei um susto quando Duda pegou minha mão e colocou no peito.

- Sinta - disse baixinho.

- Eu também estou ansioso - respondi.

Finalmente eles entraram. Um de cada lado.

                                                                              ZECA

Aquela jararaca seguiu Duda até a porta do cinema. Há mais de um mês que só vejo a mina de longe.

Meus olhos custaram a se habituar à escuridão, mas lá estão eles.

Sigo pela esquerda e Carlão pelo corredor do meio. Carlão já estava nesta história, mas vocês não sabiam.


Beijo Duda, e Pedro beija Carlão.


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Um comentário:

Zoraya disse...

uauauaauaua SENSACIONALLLL, Albir. Sensacional.